Em 10 de junho de 1984, Amyr Klink partiu sozinho da Namíbia num barco a remo de 6,5 metros, rumo ao Brasil. Tinha 28 anos, formação em economia pela USP e uma estimativa: cem dias de mar. Chegou à Bahia em 18 de setembro, no centésimo dia. A façanha inédita, o primeiro cruzamento do Atlântico Sul a remo, virou o livro Cem Dias Entre Céu e Mar e uma vida inteira de expedições. Quatro décadas depois, ele segue recusando o rótulo de aventureiro. Reunimos aqui lições de como ele planeja.
O mérito está no plano. Klink insiste que a conquista de 1984 pertence aos dois anos de preparação, do projeto do barco à escolha de cada item a bordo. O que parece coragem no mar foi resolvido, quase todo, em terra.
Divida o problema até ele caber. A travessia parecia impossível como um todo. Klink conta que a dividiu em vários projetos pequenos e descobriu que nenhum deles era tão complexo. O tamanho do desafio mudou quando mudou o jeito de olhar.
Projete para o tombo. Nenhum desenho naval garantia um barco que não virasse. A solução foi o oposto: um barco feito para virar e desvirar. O dele capotou com tempestades e com o encontro de uma baleia, e voltou à posição todas as vezes.
Sustente a rotina quando ninguém vê. Oito horas de remo por dia, e outras tantas de cálculos com o sextante para saber onde estava. Cem dias sozinho no oceano se sustentam menos no ânimo e mais na disciplina de repetir o essencial.
Suba o padrão, mantenha o método. Depois do Atlântico, Klink passou um inverno inteiro sozinho na Antártica e, em 1999, deu a volta ao continente gelado em 88 dias. Cada projeto maior que o anterior, preparado do mesmo jeito.
Você sabia
A estimativa feita dois anos antes da partida previa cem dias de mar. A viagem, do embarque na Namíbia ao desembarque na Bahia, durou exatamente cem dias. O relato virou Cem Dias Entre Céu e Mar, que passou 31 semanas na lista dos mais vendidos e ganhou nova edição pela Companhia das Letras, junto com a chegada da história aos cinemas.
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.” Amyr Klink, em Mar Sem Fim
O filme 100 Dias
A travessia de 1984 chega às telas em 100 Dias, dirigido por Carlos Saldanha, o brasileiro responsável por A Era do Gelo e Rio. O filme é baseado em Cem Dias Entre Céu e Mar, o relato que Klink escreveu sobre a viagem, e foi pré-selecionado pela Academia Brasileira de Cinema para a disputa do Oscar. A Companhia das Letras lançou uma nova edição do livro junto com a estreia.
Luiza indica
Luiza Queiroz, head de Comunicação Estratégica do Grupo Turim, indica três caminhos para quem quiser se aprofundar no assunto.
Cem Dias Entre Céu e Mar, de Amyr Klink (livro). O relato da origem, em nova edição pela Companhia das Letras: a preparação, o mar e os cem dias, contados por quem remou.
100 Dias, de Carlos Saldanha (filme). A história nas telas, com direção do brasileiro de A Era do Gelo e pré-seleção da Academia Brasileira de Cinema para a disputa do Oscar.
Paratii: Entre Dois Polos, de Amyr Klink (livro). O capítulo seguinte: um ano na Antártica, seis meses preso no gelo, sozinho. Para quem quiser seguir viagem depois do Atlântico.
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