No sexto e último episódio da primeira temporada de Valores no Tempo, Arthur Mello e Luiza Queiroz recebem Ligia Dall’Acqua, que liderou o Plenae ao lado de Abilio Diniz e Geyze Diniz. A conversa trata da diferença entre lifespan e healthspan, do envelhecimento da população brasileira e dos arranjos sociais que ele exige, da economia prateada e das oportunidades ainda pouco exploradas, e da relação entre longevidade e legado: os valores que se transmitem em vida, pela prática, e não apenas no patrimônio. Ligia relembra ainda os pilares que orientaram a vida de Abilio e a pesquisa sobre gratidão que o Plenae levou ao Conselho Federal de Medicina.
Outlive — Peter Attia
Citado por Ligia pela ideia de que uma vida longa sem saúde é mais maldição do que bênção, no centro da distinção entre lifespan e healthspan.
A morte é um dia que vale a pena viver — Ana Cláudia Quintana Arantes
A médica paliativista descreve três modos de morrer: quem morre tentando, quem morre desistindo e quem morre vivendo.
Da força ao sentido (From Strength to Strength) — Arthur Brooks
Lembrado no episódio pela leitura da segunda metade da vida e da mudança de propósito que ela pede.
Gina Pell e os perennials
Indicação de Luiza: a autora que cunhou o termo descreve os perennials como pessoas curiosas e ativas em qualquer idade.
Expectativa de vida no Brasil
Era de 46 anos em 1950 e chega a cerca de 76 anos hoje, segundo o IBGE.
Envelhecimento e economia prateada
Em 2050, o Brasil deve ser o sexto país mais velho do mundo. A economia ligada a pessoas acima de 50 anos movimenta cerca de 8 trilhões de dólares por ano, e as startups brasileiras do setor saltaram de 81, em 2018, para 343.
Recolocação e novos hábitos
Apenas cerca de 25% das empresas brasileiras se dizem dispostas a recolocar alguém acima de 60 anos, enquanto o uso de Instagram entre pessoas mais velhas cresceu de forma expressiva entre 2015 e 2022.
“The best way to predict the future is to create it.”Atribuída a Peter Drucker, lembrada por Luiza
Para Abilio Diniz, na lembrança de Ligia: para ser velho é preciso ter idade; para ser jovem, qualquer idade serve.
Para Abilio Diniz, seu propósito de vida era aprender e compartilhar.
Plenae
Ecossistema de longevidade e qualidade de vida liderado por Abilio Diniz e Geyze Diniz, nascido do evento Plenitude, em Sintra, na celebração dos 80 anos de Abilio. Produzia conteúdo diário em torno dos pilares corpo, mente, espírito, relações, contexto e propósito.
Blue Zones
As regiões com maior número de centenários no mundo, onde alimentação simples, atividade física cotidiana e o convívio intergeracional aparecem como fatores comuns.
Pesquisa sobre gratidão
Meta-análise conduzida pelo Plenae junto ao Conselho Federal de Medicina, publicada na revista científica do Einstein, que correlacionou a prática da gratidão a menos depressão e ansiedade e a mais longevidade.
MaturiJobs
Iniciativa dedicada à recolocação profissional de pessoas maduras, citada por Ligia.
Quando falamos de Family Office, pensamos logo em investimentos, planejamento patrimonial, sucessão e governança. Mas existe uma dimensão que vai além dos números e estruturas, os valores e o tempo, o que fazemos com ele quando vivemos cada vez mais.
Longevidade, propósito, relações. São aspectos muitas vezes invisíveis, mas que moldam o futuro de uma família e a forma como transmitimos valores de geração em geração. Eu sou o Arthur Mello.
E eu sou a Luiza Queiroz.
Está começando agora o sexto e último episódio da primeira temporada do podcast Valores no Tempo, projeto da Tori, uma empresa Turim, que traz reflexões relevantes sobre patrimônio, longevidade, investimento, legado e outros temas que permeiam o universo dos family offices.
Nos episódios anteriores, mergulhamos em diferentes facetas do universo dos family offices. Hoje, queremos ir além do patrimônio e olhar para a vida em si. Como nos preparamos para viver mais e melhor? Para essa conversa, temos uma convidada super especial que vai trazer olhar inspirador sobre o tema. Ligia Dall'Acqua, bem-vinda.
Bem-vinda, Ligia.
Obrigada, Luiza. Obrigada, Arthur. É um prazer estar aqui hoje.
Ligia, antes da gente entrar nas reflexões sobre o tema desse episódio, eu queria que você se apresentasse e contasse pra gente como a sua trajetória se entrelaça com essa temática de longevidade.
Bom, eu sou formada em administração pública pela GV e segui uma carreira mais voltada pra área de sustentabilidade, trabalhei em grandes empresas, bancos, e aí, por volta de 2008, acabei conhecendo o Abilio, que já tinha, né, uma história bem voltada pra esse olhar, né, de longevidade, de qualidade de vida, basicamente. E, nesse momento, ele me convidou pra fazer um projeto com ele, a gente acabou desenvolvendo junto curso de liderança na GV, e a partir de então continuei trabalhando com ele até o dia que ele resolveu celebrar os 80 anos dele de vida, e ele queria que as pessoas saíssem dessa celebração com pouco mais do que só uma comemoração, que saíssem com algum tipo de conteúdo, algum aprendizado, algum insight. E aí, então, nesse ano a gente acabou fazendo, organizando essa celebração de 80 anos em Sintra, que foi o evento Plenitude. Acabou virando um semi-congresso, assim, seminário. Foram 17 palestras com pessoas, né, palestrantes internacionais voltados pros pilares que o Abilio acreditava que tinham sido os pilares que tinham levado ele até essa idade com essa qualidade. Então, eram os pilares de corpo, mente, espírito, relações, propósito, e aí a partir desse evento, a gente voltou desse evento, né, muitas pessoas ficaram muito impactadas com isso, com esse evento, e isso acabou dando origem ao Plenae, que foi ecossistema, né, uma plataforma liderada pela Geyze e pelo Abilio, ecossistema de longevidade, de qualidade de vida, E aí foi aí que começou a minha trajetória com relação à longevidade, né? Comecei a trabalhar no Plenae e liderando isso junto com os dois. O Plenae é essa plataforma que produzia conteúdos diários, era portal, tinha podcast, tinha experiência de realidade virtual, diagnóstico, enfim, dos mais diferentes formatos de mídia e conteúdo sempre proprietários, sempre relacionados a esses pilares de saúde integral. E aí durou até o ano passado, até 2024, quando o Abilio fez a passagem, e aí a gente acabou encerrando o projeto. Então, essa foi a minha trajetória com longevidade.
Legal, e um pouco do lado pessoal, a gente sabe que você já morou em alguns países, né? Então traz essa bagagem aí meio que global, tem três filhos, várias idades.
Só não tenho mais do que o Arthur.
Pois é. O Arthur tem quatro, pra quem não sabe. Então sua trajetória é muito interessante, acho que conecta muito com o tema que a gente quer abordar aqui hoje, né? Então queria começar sabendo a sua opinião. A gente carrega uma imagem muito cristalizada do que é ser velho, tem esse estigma. E na sua visão, em que sentido a gente deveria expandir esse imaginário? Quais são os novos rostos de longevidade, por exemplo?
Então, quando a gente fala em velho, né? Vem assim uma imagem de uma pessoa dependente, incapacitada, né? Talvez... De bengala. Pois é, uma vovózinha numa poltrona tecendo, né? Fazendo crochê. E quando a gente lembra, digo aqui, somos da mesma geração, essa vovózinha, ela tinha 65 anos, né? E, tipo, quando a gente pensa e olha pra uma pessoa de 65 hoje, É uma pessoa que tá quebrando todos os estereótipos possíveis, né? São pessoas que continuam trabalhando, são pessoas que continuam estudando.
Empreendendo.
Empreendendo, né? A gente tem números que mostram isso.
É, o Gustavo, inclusive, no episódio dele, remou todos os oceanos do mundo com essa idade.
Exato... Então, o céu é o limite.
Exato.
E eu acho que o velho, assim, quando a gente fala a palavra velho, vem essa imagem, né? E eu acho que hoje em dia... Na verdade, a expectativa de vida mudou, e aí essa visão de velhice e de idoso acaba mudando. Idoso nem pode mais usar muito essa palavra, porque antigamente a gente usava idoso a partir de 60 anos. E idoso é uma terminologia que está mais ligada a quantos anos você tem de vida do que o quanto você já viveu. Então, uma pessoa idosa quando ela tem mais ou menos uns 15 anos ainda por viver. Então, uma pessoa de 60 anos não pode ser considerada idosa, porque ela ainda tem uma expectativa de vida muito grande, né? Quando a gente olha 1950, a expectativa de vida no Brasil era 46 anos. A gente tá em 2025, a expectativa é 76. Isso aí é inclusive recente, né? Pelo IBGE. Então, assim, é... A cara da velhice mudou, né? A cara dessa pessoa mais... Eles nem gostam de se chamar de velhos, né? São os maduros, né? São as pessoas maduras, que estão na meia-idade, né? E aí quando a gente fala de longevidade, pra mim, eu acho que assim, tem uma mudança aí na terminologia da velhice no comportamento, né? E mais importante do que o termo velho ou idoso, enfim, maduro, seja o que for, A questão da longevidade pra mim é como que você envelhece com qualidade. Longevidade é processo de envelhecimento saudável, né? Se tudo der certo, a gente envelhece, né?
Sim.
Então, assim, eu acho que quando a gente pensa em longevidade, é pensar nesse processo de cuidar de si próprio, de corpo, de mente, de se manter ativo, se manter curioso, se manter aprendendo, né? E aí conseguir traçar esse período, né? Essa longevidade mais longa possível.
É, então, se a gente trouxer pouco pro Plenae, que você comentou no início, não tinha público-alvo, né? Não era definido por idade, por mais que seja uma plataforma de saúde integrada, que você comentou.
É, na verdade, o Plenae, quando a gente começou, a gente falava de longevidade, e aí tem essa questão até, acho que vai de terminologia, Longevidade não é um termo sexy, né? Então, assim, ninguém quer muito ser velho ou ser longevo, enfim, né? As pessoas não sentem mais assim, né? As pessoas querem ser consideradas pelo seu estilo de vida e não necessariamente pela sua faixa etária, né? Tem até uma terminologia, né? Healthspan versus lifespan, né? Lifespan é quanto que você viveu, né? Então, seus anos cronológicos, desde o dia que você nasceu até hoje. E o healthspan é quanto que você viveu com qualidade, né? Existe essa idade cronológica versus a idade biológica. E até tem o Peter Attia, que escreveu o livro Outlive, né, e ele fala que uma pessoa que tem lifespan without healthspan é uma maldição, em vez de uma bênção, né? Então assim, a gente procurava dentro do Plenae olhar pras pessoas não por faixa etária, não por extrato demográfico, mas sim por comportamento, né? Que são os que a gente chama, o público chama de perennials ou ageless, que são sem idade. São pessoas querem se manter jovens independente da idade que eles tenham.
É, hoje a gente vê grupo de corrida no Ibirapuera ou na Lagoa, tem gente de 25 a 60, 70 anos. Então, realmente entra nesse público dos perennials. E achei muito interessante, né? Quando a gente tira o foco da idade cronológica e olha pra atitude diante da vida, né? Esse ponto dos perennials me lembra até livro muito interessante da Gina Pell, que é quem, acho que até cunhou esse termo, não tenho certeza. E ela descreve os perennials como pessoas curiosas e ativas em qualquer idade. Então vale a leitura aí pra quem quiser se aprofundar nessa ideia e mentalidade acima da cronologia.
E acho que isso, né, falando pouco da parte dos nossos clientes, do público, de alguma forma se conecta com essas famílias, que o que importa pra elas hoje em dia é uma mentalidade de seguir ativo e engajado. A gente falou ao longo dessa temporada, desse podcast, muito sobre sucessão. Então, Ligia, eu queria te perguntar sobre as diferenças geracionais. Com a sua vivência no Plenae, como você acha que é percebida a longevidade nessas diferentes gerações e nos diferentes momentos de vida?
Tá, então, quando a gente olha para os baby boomers, que são esses que a gente tem falado que estão vivendo mais agora, que são os maduros, acho que eles enxergam a longevidade quase como privilégio, né, assim, quase como realmente uma benção ter chegado lá, né. Olhando pra geração X, que somos nós aqui, X, Y, a longevidade é vista quase como uma conquista, então você se planeja pra ir atrás. Então você se programa pra isso.
É uma preocupação mais desde cedo, né?
Com o avanço da tecnologia, do aumento de informação sobre o assunto, então assim, tem mais acesso, eu vou conseguir me organizar pra conquistar essa longevidade, né? E eu acho que as gerações mais novas, é quase que dado que eles vão viver 100 anos, entendeu? Eles acreditam realmente que eles vão viver muito mais. E vem essa questão da longevidade como possibilidade de viver mais vidas em uma vida. Né, assim, oportunidades. Então, eu vou fazer sabático, eu vou mudar de carreira, eu vou... Tem tantas possibilidades aí nessas gerações futuras que eu acho que eles veem espectro muito mais amplo de possibilidades mesmo.
Interessante, Ligia, porque quando a gente fala de longevidade não é mais então sobre o corpo, mas também como a sociedade enxerga a gente. E existe, acho que desde sempre, uma pressão para parecer mais jovem a qualquer custo.
É, eu acho que isso nos leva a ponto muito importante na nossa conversa, que a gente vive, como o Arthur falou, numa cultura que, numa sociedade, na verdade, que cultiva muita juventude, né? Como você acha que a gente muda esse padrão? Ou se esse padrão tá mudando? Como as próximas gerações vão lidar com isso? Como tá tudo entrelaçado?
É, então, a busca pela juventude, ela é milenar, né? A gente vê em histórias antigas, né? O poço da juventude, o tesouro da juventude, né? Então, acho que tem essa cultura da juventude, acho que ela se manifesta diferentemente pro homem e pra mulher, né? Nessa questão. Sem dúvida nenhuma, tem fator estético, principalmente pra mulher, né? Desse olhar de permanecer jovem. Apesar de que nos últimos tempos, né, até pela inserção que eu tive no Plenae, a gente consegue ver uma certa libertação da mulher, assim, o empoderamento da mulher numa idade mais avançada, sentindo mais livre, com mais possibilidades mesmo de ter a idade que ela tem, sentir à vontade na idade que ela tem. Então tem perfis, tem o Cool 50+, tem o Viva Coroa, são vários perfis de Instagram que mostram mulheres bem à vontade nas idades que elas têm, né? E eu tava até comentando com a Luiza agora antes do podcast, de filmes também recentes de mulheres mais velhas com relacionamentos com homens mais jovens. Desde Nicole Kidman, né, no polêmico Babygirl, até Bridget Jones, enfim, de mulheres mais velhas se relacionando com pessoas mais novas de uma forma bem tranquila e bem libertada, assim, né, de qualquer preconceito, enfim. Tem marcas de beleza que estão agindo também muito nessa direção, né, o Boticário lançou no Dia da Mulher desse ano um centro de pesquisa em parceria com o Einstein, onde ele estuda o corpo da mulher, nas suas diferentes idades, e tudo que aparece dentro desse laboratório, eles acabam originando produtos, e o slogan é, o seu auge é hoje. Então, independente da sua idade, você tem que ficar à vontade naquela idade que você tem, né? Então, assim, tem principalmente pra mulher, né? O homem, eu acho que ele tem essa preocupação também com a juventude, Mas o homem envelhece melhor, né? O tempo é mais generoso com o homem, né? Assim, homem grisalho é charmoso, uma mulher grisalha é desleixada, né? Então, quando a gente pensa, assim, em juventude, nessa cultura da juventude, né? Nesse culto à juventude, eu acho que a gente poderia tentar migrar do estético pro comportamento, né? Então, buscar, quando a gente fala em juventude, buscar o comportamento jovial, a disposição, a vontade de fazer coisa, de aprender, em vez de ficar simplesmente na juventude pela estética, né? Porque uma, por exemplo, uma mulher de 60 anos querendo parecer 50, cheia de procedimentos, sentada em casa, ela não vai ter uma vida melhor só porque ela tá parecendo mais nova, né? Uma pessoa de 60, uma mulher de 60, homem de 60, com uma jovialidade de 30, de 40, sem dúvida nenhuma vai viver melhor, né? Então, acho que a gente poderia tentar olhar pra esse lado, assim.
Eu queria talvez ir para outro lado, que é lado mais prático, falando pouco do nosso negócio aqui. Então, ao mesmo tempo que as pessoas estão pensando nesse valor da juventude, na longevidade, isso talvez seja paradoxo, porque as pessoas podem adiar a sucessão, uma família pode adiar uma sucessão que deveria ser feita, porque ela sabe que ela vai, enfim, que as pessoas vão viver mais. Então é esse paradoxo, esse conflito, e eu queria ouvir de você, como que a gente poderia resolver esse embate, sabendo que a gente vai viver mais, como que a gente não posterga as nossas decisões que deveriam ser feitas ao longo da nossa vida.
Especialmente em relação à sucessão, né? Eu acho que o Abilio no Plenae falava muito sobre isso, né?
É, então, na verdade, assim, eu tive a oportunidade de acompanhar um pouco, né, o Abilio, no relacionamento dele com a família, enfim, nesse processo de sucessão e de passar adiante o legado, né? Eu acho que o legado, né, de passagem de uma geração pra outra, ele pode ser visto do ponto de vista de patrimônio financeiro, Mas ele pode ser visto também do ponto de vista de valores, de estilo de vida, de como viver. E eu acho que esses valores são passados em vida, né, assim, é a prática, são os hábitos, é você viver aquilo diariamente, né. E o Abilio, eu não tenho dúvida que ele deixou isso, né, assim, pra família, né, como legado. Então, assim, a preocupação em praticar esporte, atividade física, a preocupação de cuidar da mente, valorizar o autoconhecimento, fazer terapia, e ele tinha alguns processos também que ele mantinha. Com a família pra cultivar isso. Então, viagens, reuniões de família, conselhos, isso era assim inadiável, não desmarcava de jeito nenhum. Isso fez com que a família, mesmo depois da passagem dele, continuasse marcando e praticando o que aprendeu com ele ao longo da vida, né? Dessa questão de legado. E eu acho até que tem uma inter-relação, uma conexão entre o que é legado, né, de patrimônio e a questão da longevidade, né? Pra essas duas coisas, a gente precisa ter visão de futuro, né? Então, assim, aonde a gente quer chegar, como que a gente quer chegar, tem que ter uma questão de planejamento, né? De estratégia. Então, o que eu vou fazer hoje? E aí, sem dúvida nenhuma, o que fazia pra fazer hoje, às vezes precisa de alguns sacrifícios, né? Então eu vou poupar pra poder tirar mais lá na frente, ou eu vou me exercitar mais pra poder ter mais mobilidade no futuro, enfim, então tem essas... Trade-offs. Trade-offs, e são coisas quase que de conexão entre esses dois temas, né? Esses dois assuntos. E aí eu tava pensando, né, que tem termo na ciência que chama epigenética.
Tem um belo livro de epigenética pra quem... Eu esqueci o nome do autor, mas ele chama Epigenética e eu tô lendo ele enquanto esse podcast tá sendo gravado. Então, coincidência.
Vamos ver se você vai concordar comigo então, Arthur. A epigenética, pra quem não sabe, é como que efeitos externos ou fatores externos mesmo conseguem ativar, desligar ou ligar algum tipo de gene nosso. Então, fica a pergunta da epigenética, o que vale mais? Você nascer com uma genética boa ou você ter hábitos saudáveis? O que vai te levar mais longe? E aí esse conceito eu fiquei pensando que tinha também a ver pouco com essa questão de patrimônio, de cuidar do seu próprio patrimônio, né? O que vale mais a pena? Você nascer já com bolso grande, né? Ou você cuidar dele pra ele ir crescendo ao longo do tempo? Então, são vários temas aí com relação à longevidade que pra mim permeiam também essa questão de legado, de patrimônio.
A gente, na Turim e na Tori, a gente... Interessante você falar tudo isso porque a gente incentiva as famílias a fazerem as doações em vida e principalmente prepararem as futuras gerações pro dia a dia e pra não ser uma surpresa do dia pra noite quando existe o evento da sucessão.
É o jeito de você também fazer isso em vida e ensinar em vida e mostrar em vida. Eu acho que é o jeito de você se manter vivo depois da sua passagem também, né?
É verdade.
É jeito de você garantir esse...
Não tinha pensado.
Estender a vida por meio do seu próprio legado, né?
Não tinha pensado por esse lado. E isso até me lembra uma frase do Peter Drucker que fala, The best way to predict the future is to create it.
Ai, eu amava essa frase.
Que talvez transmitir valores em vida seja justamente isso, né? Criar hoje o futuro que a gente quer deixar. Então planejar o futuro que a gente dia vai deixar.
Tem uma frase que não é do Peter Drucker, mas eu também sou fã de cultura pop, e o De Volta Pro Futuro 3 termina com uma frase muito parecida do Doc Brown. Esse ano são 40 anos do lançamento do De Volta Pro Futuro 1, então pros ouvintes que quiserem se lembrar e comemorar, é só procurar lá nos tocadores.
Qual é a frase?
A frase é algo como o futuro não está escrito, você que faz o seu próprio futuro e o filme acaba, a trilogia acaba.
Mas dito isso tudo, de preparar, eu acho que também tem outro lado da moeda que existe quase tabu em falar sobre isso. Mas justamente esse silêncio pode atrapalhar o planejamento. Como você enxerga esse ponto de você ter esse receio?
Eu acho que no Brasil, na verdade, em várias culturas, né? A gente tem uma questão muito difícil de falar de luto, né? De falar de morte, assim, tem uma certa limitação, uma trava mesmo, né? Que é difícil, né?
É um assunto delicado.
É um assunto delicado, mas foi feita uma pesquisa aqui no Brasil, 68% dos respondentes diziam que não queriam falar sobre a morte porque era assunto mórbido, e porque também dizia a respeito a sua própria intimidade, né? Então, é assunto de difícil trato mesmo, né? E eu acho, aí até fazendo, tentando fazer gancho como você vive e como você morre, né? Tem o livro da Ana Cláudia Arantes que fala, a morte é um dia que vale a pena viver, né? Ela fala que tem três tipos de mortes possíveis, né? Quem morre tentando, quem morre desistindo e quem morre vivendo. E quem morre vivendo tem a oportunidade de pensar como que você quer viver hoje, né, pra viver de forma mais plena e intensa o momento de hoje, né, e assim, sabendo que a morte ela é inerente a todos nós, né, e que a única certeza que a gente tem é que é a finitude, se você faz as pazes com isso, você consegue viver melhor o dia de hoje sabendo como que vai ser esse fim, né, então assim, você acknowledge, né, se você entende e faz as pazes com isso, você consegue prever melhor e fazer planejamento melhor até lá. Mas é trabalho, né? Eu acho que assim, não tem uma receita para isso.
É, eu acho que uma das coisas que a gente faz aqui é normalizar a conversa. Às vezes terceiro, ter family office para trazer esse assunto à tona pode ajudar, né? Não ser pai e filho. Mas eu acho que falar da morte é até uma forma de valorizar a vida, né? Quando você quando a gente não aborda o tema, a gente vai deixar lacuna, porque a gente não vai conseguir falar tudo que a gente gostaria de se planejar, e então é importante abrir esse diálogo, né?
Sem dúvida.
E também dessa parte prática, né? Quando a gente vive mais tempo, essa, enfim, uma conquista, né? Que a gente, que nem você falou, né? Os jovens hoje, eles assumem que eles vão viver cem anos, a gente precisa fazer novos arranjos. Do mesmo jeito que a gente se prepara para a sucessão, a gente tem que estar preparado para esses novos arranjos estruturais, sociais. Como que essa questão apareceu no Plenae, desses arranjos para você lidar com esse teu tempo, aqui colocando entre muitas aspas, esse teu tempo extra que a gente conquistou?
É, então, tem até livro, né, do Arthur Brooks, que chama A Segunda Metade da Vida, né? E, na verdade, assim, se você consegue olhar pra tua vida a partir de determinado momento e entender que às vezes mudou o propósito, né? Você consegue viver inteiramente esse outro momento, essa outra fase, né? Sem dúvida, assim, o que a gente tá vivendo aqui no Brasil e no mundo, na verdade, né? O envelhecimento da população, né? Em 2050, o Brasil vai ser o sexto país mais velho do mundo, né? E a pirâmide que é uma pirâmide vai virar literalmente cogumelo, né? A gente vai ter mais gente acima de 60 e cada vez menos gente abaixo de 17, vai ter mais avós do que netos. E aí várias questões estruturais vão sofrer com isso, né? Desde o sistema previdenciário, né? A gente vai ter menos contribuinte, cada vez mais beneficiário, e precisar dessas questões de adaptabilidade, né? Desde urbanismo, mão de obra especializada, enfim. E a gente tratava bastante disso no Plenae, assim, como fazer não só para as pessoas que estão conseguindo, né, e alcançando essa longevidade, mas também como fazer a sociedade se preparar para isso, né, porque não é uma coisa você buscar sua longevidade pode ser uma questão individual, né, assim, eu acho que parte do indivíduo, mas a sociedade tem que estar pronta pra isso também, né. Então, por exemplo, tem muitas pessoas acima, sei lá, de 60 anos querendo voltar a trabalhar. E é uma dificuldade enorme, né, a gente tem uma entidade chamada MaturiJobs que eles fazem só isso, recolocação de pessoas maduras, né. E é um desafio, né, assim, a gente tem pesquisa que mostra que só 25% das empresas no Brasil estão dispostas a fazer uma recolocação de uma pessoa acima de 60 anos, né, de fazer, de integrar a força de trabalho deles. Então, acho que a gente pode até incentivar essas pessoas, mas também tem que ter uma contrapartida da sociedade, né, pra abraçar isso.
E aí eu acho que outro, não é problema, mas talvez outra dificuldade que a gente esteja vendo é cuidadores, né? Pessoas dispostas a cuidar dessa nova faixa etária, dessa nova população que vai envelhecer cada vez mais, né?
É, e é uma população, se você for pensar, as pessoas se programam mais ou menos pra viver até os 70, 75, né? E aí quando chega nessa idade, elas ainda vão viver mais 15, 20 anos, né. Tem uma frase que é o futuro é velho, que é a maior parte do tempo da sua vida você vai ser mais velho. Essa fase é uma fase cara, né, porque você vai precisar de remédio, de médico, enfim, de cuidador, né, de algum tipo de assistência. E as pessoas não estão preparadas pra isso, né? Então, tem várias condições aí que precisam mudar pra gente conseguir abraçar e acolher também essa população, que em breve seremos nós também, né? Como que a gente vai se adaptar a isso.
Acho que dá pra falar, enfim, que a gente tá, a gente tá no começo, a gente tá engatinhando nesse processo, acho que especialmente no Brasil, né, você falou do Brasil e o Brasil, eu não sabia dessa estatística, né, de que vai ser o sexto país mais velho do mundo, mas naqueles gráficos que você olha de envelhecimento da população, que o Brasil é .. A velocidade que o Brasil envelheceu é muito superior a dos países como, sei lá, França, Itália, né? A gente... A taxa de natalidade caiu muito rápido, né? Enfim, a população ficou mais velha muito rápido. Tem algum economista, que eu não vou lembrar, que fala que a gente ficou velho antes de ficar rico. Enfim... E lógico, também com isso que você falou, tem oportunidades, desde você abrir negócios pra esse público, cuidadores, etc. Acho que então a gente tá engatinhando, mas esse assunto vai certamente, do aspecto da economia, certamente isso vai... Tem muita água pra rolar e muita coisa pra acontecer, dado que a gente tá tão... Então, num processo assim tão jovem ainda, né, de entender o que tá acontecendo.
É, e o termo economia prateada tem ganhado força, né? E você pincelou, eu acho, pouco, dando alguns exemplos, mas como você acha que o mercado realmente tá enxergando essas pessoas maduras? Elas são vistas como consumidoras plenas ou ainda são, talvez, pouco subestimadas?
Então, economia prateada se refere a todas as atividades econômicas relacionadas a pessoas acima de 50 anos, né? E essa fatia representa hoje a terceira maior economia do mundo, né? Que movimenta aí cerca de 8 trilhões de dólares por ano. Então, assim, tem sem dúvida nenhuma, espaço grande de investimento nisso, mas se você perguntar para as pessoas maduras, eles acham que ainda não estão sendo vistos, eles acham que ainda existe investimento muito maior em outras áreas. Eu arrisco dizer que, assim, isso se deve ao fato de que muitas dessas empresas, né, ou esses produtos, projetos, iniciativas, que são voltadas para longevidade, acabam sendo envelopadas como saúde, bem-estar e wellness, né? Porque, de novo, ninguém quer fazer produto.
Pra... Wellness é o tema do momento.
É, exato. Então, quando você envelopa como wellness, a pessoa que tá lá, né, com longevidade, talvez não se enxergue ainda, né? Mas no Brasil, a gente sabe que assim, tem aí em 2018, tinha 81 startups voltadas pra esse público, né? Saúde, bem-estar, wellness, longevidade. E hoje em dia esse número já pulou pra 343. Ou seja, tem muito espaço ainda de crescimento. Eu acho que vai ser filão, mas ainda não nesse formato de longevidade mesmo. Quando a gente tava no Plenae, Muita gente trazia produto. Essa parte, por exemplo, de co-housing vieram apresentar várias vezes pra gente, né? Alguns casas residenciais.
Co-housing, o que é? Co-housing são pessoas mais velhas vivendo na mesma...
Isso, numa mesma comunidade, né? Pode ser casas individuais, pode ser apartamentos. Co-housing é uma expressão até que surgiu na Dinamarca em 1970, né? E depois acabou migrando pra essa parte de pessoas mais velhas, né? O elderly. E só que assim, aqui no Brasil não tem nenhum ainda funcionando com esse formato, que são casas adaptadas, né, com, sei lá, com corrimão, com cadeira elétrica, elevador, iniciativas que propiciem o convívio, né, entre as pessoas. A gente sabe que solidão por si só já é fator que mata mais do que álcool e cigarro até, né? Então assim, ainda mais numa fase onde você acaba, tem gente que tem problema auditivo, que é super isolado, né? Isola demais. Então, co-housing ele propicia esse tipo de convívio. Então, vieram apresentar pro Plenae algumas iniciativas dessas, nenhuma foi pra frente, né, ainda. Então, não sei se é por descrença que vai dar certo, ou se é por pouco de preconceito ainda dos investidores, enfim. Então, ainda, como o Arthur diz, tem muita água pra rolar também. O co-housing por si só, assim, se ele funcionar de acordo com esses critérios que a gente tava falando, né, de propiciar o convívio coletivo, de ter essa assistência médica, de ter essas adaptações, enfim, se ele atender isso ele funciona, mas se não existe risco de ele virar o que a gente chama os antigos asilos, né? Que é depositário de pessoas mais velhas, né? E isso faz com que as pessoas fiquem cada vez mais isoladas. E aí, sem dúvida nenhuma, a longevidade não vai chegar ali, né? Na verdade, aí vai ser aquela maldição até que o Peter Attia fala. Isso porque uma das questões, né? dos pontos importantes, por exemplo, de longevidade Quando a gente olha para as Blue Zones, que são as zonas onde tem o maior número de centenários no mundo, né, dos fatores críticos de relacionamento para essas pessoas é o relacionamento intergeracional.
Quais são? Você tem algum exemplo?
Ai, tem na Califórnia, tem no Japão, tem em alguns lugares, assim, tem na Itália. E eles têm coisas muito similares, né? Então, é uma alimentação mais saudável, mais pura, né? Comida de verdade. Então, é azeite, é proteína, tem uma parte de fazer atividade física conforme a tua necessidade. Então, são pessoas que pescam ainda pra poder comer o próprio, né? O que pescou, o próprio alimento, enfim. E dos fatores é essa conexão intergeracional. Então, é o avô que cuida do neto, enquanto o pai sai pra pescar, por exemplo, ou sai pra trabalhar. E essa conexão entre o que o mais novo aprende com o mais velho e o que o mais velho rejuvenesce com o mais novo, faz com que isso traga vida, né? Traga disposição e energia. Então, essa parte do co-housing ficaria, na verdade, limitada a esse tipo de envolvimento, de relacionamento, né?
É, muito interessante, porque eu acho que quando a gente fala de comunidade para idosos, enfim, o termo, qual for o termo, no fundo a gente está discutindo até que ponto é responsabilidade da própria pessoa escolher como ela vai viver, ou terminar a vida, no caso. Ou até que ponto a sociedade precisa também poder oferecer alternativas, né? Você acha que viver bem os últimos anos da vida é projeto coletivo ou é uma iniciativa individual?
Eu acho que começa no individual, né, a pessoa tem que ter uma vontade de buscar se manter ativo, né, se manter a cabeça ativa, mas aí, sem dúvida nenhuma, o coletivo precisa ajudar, né, precisa estar preparado pra isso, né, não adianta ter único indivíduo sozinho, enfim, se ele não tem também as condições que precisam pra conseguir fazer esse envelhecimento saudável, né.
Então, ele começa no indivíduo, ganha força no coletivo. E eu, ouvindo você falar, e lembrando, né, do que você falou logo no começo, que o Abilio, de certa forma, ele unia esses dois lados. Ele cuidava né, de si mesmo, mas tentava influenciar positivamente as pessoas. Enfim, o Plenae é fruto disso, certo? E você comentou que ele tinha esse desejo expresso, né, de influenciar as pessoas positivamente. Eu queria saber quando que isso surgiu nele, como que esse desejo foi evoluindo ao longo do tempo.
É, o Abilio falava que o propósito de vida dele era aprender e compartilhar, né? Então, assim, a coisa que ele mais gostava era ele passar quando, sei lá, nos corredores da GV, quando ele dava aula e vinha alguém e falava, professor, eu comecei a correr por tua causa. Ou quando ele ia na igreja, na São José, e alguém chegava perto e falava, Abilio, eu comecei a frequentar a missa todos os domingos por tua causa. Então ele gostava dessa influência, assim, né? De saber que ele tava, de alguma forma, mexendo algum ponteiro na vida das pessoas pro bem, né? Pra essa qualidade de vida, pra buscar essa qualidade de vida. O que eu acho curioso é que o Abilio sempre foi uma pessoa bem intuitiva, né? Então, ele chegou nesses pilares de uma forma bem intuitiva ao longo da vida dele, né? Acabou escrevendo os livros. Que são os pilares que hoje em dia a gente sabe que são os pilares da saúde integral, que são os pilares que as Blue Zones praticam, e ele chegou nisso pela trajetória dele, né, não foi, assim, ele estudava, sem dúvida nenhuma.
Que relembrando aqui são corpo, mente, espírito, relações, contexto e propósito, né?
Isso. Então é praticar uma religiosidade, né? É ter propósito de vida, é cuidar da mente, do corpo, é praticar uma espiritualidade e sem dúvida nenhuma entender o contexto onde você tá inserido, né? Então esses eram os pilares que nortearam a vida dele, que fizeram que ele chegasse onde ele chegou com qualidade, né? E além dele compartilhar e incentivar, assim, ele era muito generoso, né? Tem uma história que uma vez ele tava conversando com padre, e aí ele achou que o padre tava pouquinho acima do peso, foi lá e comprou uma esteira pro padre, entendeu? Vamos emagrecer. Eu lembro eu, particularmente logo que eu o conheci, eu engravidei da minha primeira filha e acabei tendo uma depressão pós-parto, baby blues, né? E eu lembro de comentar com ele, eu lembro que na mesma semana ele já tinha marcado uma terapia pra mim, pra eu ir, porque eu não podia ficar daquele jeito. Então, ele era bem prático, assim, ele tinha essa preocupação de ajudar o próximo E de, assim, mesmo depois da passagem dele, apareceram muitas pessoas que eram ajudadas por ele que ninguém nem sabia, assim, né? Ele, então, ele gostava realmente de impactar a vida das pessoas. Esse era o grande motor pra ele ser professor, inclusive, né? Ele queria passar isso adiante. Desde antes dele abrir o Pão de Açúcar, ele queria ser professor, acho que um pouco por essa experiência de impactar e se envolver com outras pessoas.
É, eu acho que pelo que eu já li muito sobre ele e outras conversas que eu tive com você, você mencionou muito gratidão também. É uma coisa que eu, particularmente, levo muito a sério na minha vida e pelo que eu entendi também, até no Plenae, vocês fizeram alguns estudos sobre isso.
Sim. Gratidão, o Abilio tinha muito esse olhar, mas a gratidão veio mesmo, esse conceito da gratidão foi inserido mesmo pela Geyze. A Geyze tem uma prática muito regular, né, e muito consistente em relação à gratidão. E ela realmente acreditava na época, né, que a prática da gratidão conseguia trazer uma vida com mais qualidade. E aí, até motivado por isso, a gente acabou procurando fazer uma meta-análise, né, uma revisão sistemática, a gente procurou o Conselho Federal de Medicina, e reviu toda a bibliografia escrita, quando a gente chegou a conversar com o professor, que é o professor Vanderlei, ele falou assim, olha, a gente vai conversar pouco, mas eu não sei se vai dar pra fazer esse estudo, porque a gente não sei se tem bibliografia pra isso. E aí ele voltou depois de umas semanas e falou assim, olha, tem, e não só tem como foi, aí a gente acabou fazendo a pesquisa e ficou correlacionado, né? Diretamente que a prática da gratidão nas suas mais diferentes formas trazem uma vida com mais qualidade, com menos depressão, menos ansiedade e mais longevidade, né? Então, e esse estudo acabou sendo publicado inclusive na revista do Einstein. Então, é uma prática que a Geyze tem isso muito no dia a dia dela e o Abilio também praticava.
Muito legal. É, eu acho que fica nítido ver você contando assim como ele viveu com muita intensidade, propósito, sempre buscando inspirar os outros, né? E aí eu acho que surge uma curiosidade, né, Arthur?
Você comentou que hoje as pessoas nascem sabendo que vão viver até 100 anos. E se o Abilio soubesse desde cedo que ele viveria até os 100 anos, o que você acha que ele teria feito diferente?
Eu acho que muita coisa, eu acho que na verdade a incerteza é o que faz a gente se mobilizar e se mover na direção do que a gente quer, né? Eu acho que ter muita certeza do que vai acontecer acaba te acomodando e talvez não te estimula a procurar novas oportunidades e novos caminhos, né? Eu lembro quando eu comecei a trabalhar com ele, que era pra fazer o curso da GV, ele comentou comigo que até aquela história, né, do pão de açúcar, dele abrir mão do pão de açúcar, ele falou, quando eu fiz esse contrato, eu não imaginava que no dia que chegasse a data, eu ia ter casado de novo com uma pessoa incrível, né, mais nova, que ia me dar mais dois filhos. E a minha vida ia começar tudo de novo, assim, né? Ia... Então, assim, com novos desafios. Então, acho que se você tem muita certeza do que vai vir a acontecer, acho que isso acaba até te paralisando pouco. Então... É... Acho que ele teria feito muita coisa diferente. Ainda bem que ele não sabia que ele ia viver tanto tempo, que ele fez muitas coisas.
Não, mas é interessante, né? Da incerteza ser o motor pra gente. Eu concordo totalmente com essa visão. Achei muito legal.
É, eu acho que falando em transformação tem uma força que vem mudando radicalmente a forma como a gente vive, né? Tecnologia, ela vem provocando mudanças bruscas no mundo e enquanto, já que a gente falou de geração, enquanto as novas gerações já nasceram conectadas e com a habilidade de lidar com esses aparatos tecnológicos, telefone, computador e o que está por vir, as gerações mais idosas precisam se adaptar para não ficarem deslocadas da realidade, né? Nesse contexto, eu queria saber sua opinião de como você acha que a tecnologia tem impactado a vida das pessoas mais maduras.
Então, eu até tenho dado que fala que de 2015 a 2022 teve aumento de 5 mil por cento no uso do Instagram das pessoas mais velhas, né? Influencers. Tem muitos influencers mesmo, né? Assim, mais maduros. Tem também, mas assim, acho que sem dúvida nenhuma a pandemia também deu uma impulsionada nisso, né? Que as pessoas tiveram que aprender a fazer video call, enfim, pra se conectar com a sua própria família, tudo. E eu acho que, assim, precisa ter certo letramento, né, das pessoas pra entender e aprender a usar essa tecnologia. E tem muita coisa que vem a favor, né, assim, tem, acho que assim, tem gadgets, né, e produtos desde monitoramento de pressão, colesterol, de sono, tem celulares com teclas maiores, tem apareceu pra mim outro dia, né, uma roupa que, na verdade, anti-queda, você cai e o negócio explode, assim.
Airbag.
É tipo um airbag embutido em você. Então, sem dúvida, acho que a tecnologia vem a favor, né, de uma vida com mais qualidade, assim, eu acho que...
E até com menos solidão, de alguma forma, né?
Sem dúvida, sem dúvida. Essas videochamadas, né? Essa possibilidade, né? Tem inclusive, assim, até produtos que são, sei lá, os robôs, né? Então, cachorro, robô, isso, né? Enfim, que faz companhia, né? Para as pessoas mais velhas, enfim. Então, eu acho que vem a favor, sem dúvida precisa de, assim, ficar só nesse mundo também gera esse isolamento, que é uma preocupação, mas eu acho que, no geral, a tecnologia tem vindo pra melhorar a vida das pessoas.
É, eu concordo.
Ligia, pra encerrar, eu quero... A gente quer, né? Fazer bate-bola rápido e ouvir respostas mais, talvez, espontâneas.
No instinto, no instinto.
Exatamente. Sobre esse tema. Você topa?
É, topo. Vamos lá.
Vamos lá. Longevidade é privilégio ou responsabilidade?
Responsabilidade.
Viver 100 anos, você acha que exige mais planejamento ou coragem?
Coragem.
Você acha que as pessoas vivem como se fossem durar 100 anos?
Não.
Envelhecer é ganhar ou perder?
Envelhecer com qualidade é ganhar.
E o que passa mais rápido, os anos ou os dias?
Os anos.
Boa resposta. Ligia, eu acho que é isso. Muito obrigada por estar aqui com a gente nesse último episódio e compartilhar reflexões tão profundas e inspiradoras. Foi uma honra encerrar essa temporada com você.
Eu que agradeço, eu só queria terminar com uma frase, como a gente falou bastante do Abilio, como teve minha passagem pelo Plenae, uma frase que o Abilio sempre falava e que eu acho que estimula e queria que influenciasse vocês que estão ouvindo também. Ele costumava dizer que para ser velho precisa ter idade e para ser jovem qualquer idade serve.
Obrigado, Ligia.
Obrigada.
E com esse episódio, a gente fecha a primeira temporada de Valores no Tempo, projeto Tori, uma empresa Turim. Se você ainda não ouviu todos os episódios, aproveite para maratonar. Eles estão disponíveis em todas as plataformas de streaming.
E fiquem ligados, porque outras temporadas podem estar por vir. A gente ainda tem muitos assuntos para explorar nesse universo de patrimônio, longevidade, legado e a vida.
Foi prazer enorme dividir essa temporada com vocês, ouvintes. Esperamos que tenham gostado, tanto quanto a gente gostou de fazer cada uma dessas conversas.
Até a próxima, pessoal.
Novos episódios sobre patrimônio, cultura e o tempo longo das decisões.
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