Sobre o episódio

O que este episódio traz

Karina Oliani é médica e alpinista brasileira. Em 2013 foi a mais jovem brasileira a chegar ao cume do Everest, em 2017 escalou a montanha também pela face norte, tornando-se a primeira mulher sul-americana a conquistá-la pelos dois lados, e em julho de 2019 foi a primeira brasileira a chegar ao cume do K2, no Himalaia, numa temporada em que 100 dos 120 escaladores desistiram. Neste episódio do Valores no Tempo, podcast da Tori, ela conversa com Arthur Mello e Luiza Queiroz sobre como se toma decisão em altitude, quando o frio e a falta de oxigênio reduzem a capacidade de raciocínio; sobre o acidente que a deixou temporariamente sem movimentos aos 18 anos e a levou para a medicina; e sobre a ABMAR e o Instituto Dharma, as duas organizações que fundou para levar medicina de áreas remotas a lugares isolados.

No episódio

Temas abordados

Dicas do episódio

Livros

Endurance, sobre a expedição — Ernest Shackleton

O livro preferido de Karina Oliani. Para ela, uma das melhores histórias de liderança e resiliência que já existiram. Conta a travessia da Antártida pela tripulação do navio Endurance, preso no gelo em 1915.

Um teto todo seu — Virginia Woolf

Citado por Arthur Mello durante a conversa. No ensaio de 1929, Woolf argumenta que o que faltava às mulheres não era talento, e sim dinheiro e um lugar para trabalhar.

Podcast

The Emergency Mind de Dan Dworkis

Indicação de Luiza Queiroz. Apresentado por um médico emergencista americano, o programa trata menos de medicina e mais de como se prepara uma equipe para trabalhar sob pressão.

Documentário

14 Peaks: Nothing Is Impossible

Documentário da Netflix sobre o alpinista nepalês Nimsdai Purja e a escalada das catorze montanhas acima de oito mil metros. Karina Oliani aparece no filme, gravado na mesma temporada do K2 em que ela chegou ao cume, em 2019.

Referências

Onde assistir ao trabalho de Karina Oliani

Karina apresenta o Planeta Extremo, na Globo, com matérias exibidas no Esporte Espetacular. No Canal Off estreia, no ano que vem, o programa Resgates Extremos. Ela dirige também os filmes Escalando no Fim do Mundo, primeira escalada do Monte Vinson, na Antártida, documentada para a televisão brasileira apenas por brasileiros. Vídeos das expedições ao Kilimanjaro, Aconcágua, Antártida, Everest e K2 estão disponíveis no YouTube.

ABMAR

Associação Brasileira de Medicina de Áreas Remotas e Esportes de Aventura, fundada por Karina Oliani, que foi sua primeira presidente. A entidade tem disciplina na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e caminha para o reconhecimento da área como especialidade médica no Conselho Federal de Medicina.

Instituto Dharma

Criado há dez anos por Karina Oliani, leva expedições médicas a regiões isoladas. Realiza entre sete e oito ações por ano, com foco no Brasil, e já atuou na África, no Sudeste Asiático e no Nepal. É sustentado pelos próprios voluntários, que custeiam a viagem e doam 15% para a compra de medicamentos.

Pessoas citadas

Dick Bass, primeiro a completar os sete cumes, de quem Karina foi médica em 2010. David Breashears, alpinista e cineasta que a contratou para a expedição. Nimsdai Purja, que fixou as cordas na temporada do K2 em 2019. Ed Viesturs, primeiro norte-americano a escalar todas as montanhas acima de oito mil metros sem oxigênio suplementar. Elizabeth Hawley, que por décadas registrou as ascensões no Himalaia a partir de Kathmandu.

Transcrição

Transcrição completa

Luiza Queiroz 00:02

8.611 Metros. Essa é a altura do K2 no Himalaia. A segunda montanha mais alta do mundo e, para muitos alpinistas, a mais difícil de todas. Lá em cima, o ar tem cerca de terço do oxigênio que a gente respira aqui embaixo. O corpo começa a se deteriorar e o cérebro, que é o instrumento mais importante que alpinista carrega, é justamente o primeiro a falhar.

Arthur Mello 00:25

Um escalador permanece no cume poucos minutos. O que vem antes dura anos, e é ali que quase tudo se decide. Porque lá em cima sobra pouco espaço para pensar. E o que resta é confiar nas decisões que você tomou quando ainda estava respirando bem. Eu sou Arthur Mello, co-CIO da Tori.

Luiza Queiroz 00:43

E eu sou a Luiza Queiroz, Head de Comunicação Estratégica do Grupo Turim.

Arthur Mello 00:47

Este é o Valores no Tempo. Podcast da Tori. Na primeira temporada, a gente olhou pra dentro, a origem dos family offices, as estruturas, a cultura, as pessoas que sustentam esse trabalho. Nos próximos episódios, a gente vai conversar com mulheres que construíram trajetórias notáveis em campos muito diferentes entre si. A alta montanha e a medicina de emergência, a ciência do mar e a pesquisa de décadas, a física de partículas, o desenho de viagens e experiências, o mercado de luxo e o comportamento de consumo, a longevidade e o cuidado com o corpo ao longo do tempo.

Luiza Queiroz 01:24

São mundos bem distantes uns dos outros. E foi justamente por isso que a gente quis colocar essas conversas lado a lado. Aqui na Tori, a gente gosta de olhar para o lado humano e cultural do que sustenta uma trajetória. E é por isso que o nosso conteúdo passa por história, ciência, comportamento e cultura. E não só por mercado. Para começar essa conversa, a gente não poderia ter escolhido alguém melhor.

Arthur Mello 01:46

Karina Oliani é médica, com especialização em urgência e emergência pelo Albert Einstein e em medicina de áreas remotas nos Estados Unidos, onde foi a primeira médica latino-americana a obter o título. É alpinista. Em 2013, foi a mais jovem brasileira a chegar ao cume do Everest, pela face sul, e em 2017, subiu a montanha também pela face norte, tornando-se a primeira mulher sul-americana a conquistá-la pelos dois lados. Em julho de 2019, chegou ao cume do K2, a primeira brasileira e segunda pessoa do Brasil a fazer isso. Foi ela também quem abriu espaço para a expedição e o esporte extremo na televisão brasileira, com a produtora que dirige desde 2009. Fundou a ABMAR que trouxe a medicina de áreas remotas para o Brasil, e preside o Instituto Dharma, que leva o atendimento médico a populações isoladas aqui e em outros países.

Luiza Queiroz 02:38

Karina, seja muito bem-vinda ao Valores no Tempo.

Karina Oliani 02:41

Obrigada, é prazer estar aqui.

Luiza Queiroz 02:43

Karina, você saltou de paraquedas e mergulhou aos 12 anos. De onde saiu essa vontade de ser aventureira? Isso sempre foi incentivado dentro da sua casa?

Karina Oliani 02:52

Não, pelo contrário. Isso era bem segurado lá na minha casa. E era uma vontade que eu tinha. Eu nasci pouquinho diferente das minhas irmãs. E aí, eu tinha que meio que subornar meus pais.

Arthur Mello 03:03

Subornar?

Karina Oliani 03:04

É! Vocês querem que eu faça isso, vocês querem… arruma seu quarto. Tá, eu arrumo, se vocês me levarem pra Boituva. Eu arrumo meu quarto por mês. Então, era uma coisa... Era uma certa chantagem, assim, que eu fui aprendendo como levar eles. Porque eu levei muito não, né? Aí até dia que eles falaram, ai, a gente não aguenta mais, tá bom.

Luiza Queiroz 03:26

Mas de onde começou, assim? Você viu alguma coisa na TV? Você leu, soube, pesquisou? Você sempre foi do mar?

Karina Oliani 03:31

Olha, pra... O que eu me lembro é que eles contam que eu já era, assim, meio diferente. Imagina que eu tenho duas irmãs e a gente tinha uma casinha de... Você é caçula? Não, eu sou mais velha.

Luiza Queiroz 03:41

Caraca!

Karina Oliani 03:42

E aí a gente tinha uma casinha de boneca e em vez das três ficarem brincando dentro da casinha, as duas ficavam brincando de comidinha, de roupa, de pentear as bonecas e eu ficava assaltando o telhado da casa, fazendo rapel. Eles falam que, assim, já nasci assim, desde pequena, só que eles falavam que eu era extremamente feminina, né? Apesar de querer, na época, ganhava o nome de brincadeira de moleque. Mas hoje em dia a gente sabe que não é brincadeira de moleque, a gente sabe que é brincadeira de quem gosta de aventura. E mulheres e homens podem gostar de aventura hoje, graças a Deus.

Luiza Queiroz 04:18

E você chegou a fazer intercâmbio, né? Isso também foi na base do suborno, lá na Austrália?

Karina Oliani 04:23

Não, isso eu abri a fila, né, pra minha família. Eu fui primeiro pra Inglaterra, pra Brighton, e fiquei mês. E aí, como eu voltei, deu tudo certo, eles não tiveram nenhuma surpresa. Aí eu consegui ir pra Austrália e ficar mais tempo. E eu sempre quis Austrália, né? Porque tinha aquela coisa de surf, mar. Aí quando chegou lá na Austrália, eu consegui virar surf lifesaver. Que é tipo clube de salva-vidas voluntário, lá em Surfers Paradise.

Luiza Queiroz 04:51

E foi seu primeiro contato com a medicina? Porque onde que a aventura encontrou a medicina, talvez?

Karina Oliani 04:56

Eu acho que foi nessa coisa de resgate. Quando eu fui pra Austrália, eu fui querendo ser bióloga marinha. Era uma das coisas que eu já queria ir pra lá, porque lá tem a James Cook University em Townsville, que fica ali perto da barreira, da grande barreira de Cairns, e a melhor universidade de biologia marinha do mundo. E aí eu prestei todas as provas e entrei, fui aceita na faculdade, né? Então, eu fiz o colegial lá. Só que depois que eu trabalhei como salva-vidas, eu comecei a gostar de salvar.

Luiza Queiroz 05:25

Bichinho te picou.

Karina Oliani 05:26

E aí, meus pais falaram, né? Eu falei, eu quero ficar aqui na Austrália. Falaram, não, volta, você vai ficar perto dos seus pais, a gente quer viver com você. Aí, eu tive que voltar. E aí, assim, também gostei de voltar, revir meus amigos, ficar mais próxima da minha família. E aí, eu acabei optando por medicina. Mas essa escolha de medicina é engraçada, porque é uma história que não muita gente sabe, o que me levou a definir 100% que eu ia ser médica. Quando eu fiz 18 anos, eu fui bicampeã brasileira de wakeboard. Aquele esporte que você vai atrás da lancha, saltando as marolas. E eu tava fazendo uma clínica de wakeboard, ali no Broa, e treinando uma manobra que chama tantrum, que é o mortal de costas. E esse mortal, a gente treinava primeiro os invertidos na cama elástica pra depois fazer na água, que saía mais fácil. E eu tava com a manete, que é o cabo, né? E a prancha saltando na cama elástica e segurando a manete, que tava amarrada num tronco de árvore, e esse tronco quebrou. E a hora que ele quebrou, eu caí pra fora da cama elástica de pescoço no chão, mais ou menos uns 3 metros, e eu fiquei tetraplégica. Do pescoço pra baixo.

Luiza Queiroz 06:35

Quantos anos?

Karina Oliani 06:36

Dezoito. Então, com dezoito anos eu tive uma experiência de, imagina, não senti nada... Quase morte. Quase morte. E pouquinho pior, talvez, porque quando eu acordei eu falei, não acredito que eu tô viva, né? Assim, desse jeito não. E eu comecei a rezar. Comecei a rezar muito pra me levar. E aí eu dormia pouquinho, porque eu tava com muita dor, eu pegava, tipo, ou desmaiava, não sei. Eu dormia, acordava e continuava com a mesma coisa, né?

Arthur Mello 07:06

Isso no hospital?

Karina Oliani 07:07

Não, lá, a. onde aconteceu. No carro, até chegar no hospital, porque eu tava a horas de São Paulo. Aí, quando chegou no hospital, eu já tinha rezado pra morrer de todas as maneiras que eu sabia rezar e eu não tinha morrido, e continuava a mesma coisa. E aí, eles falaram, ó, ela vai fazer a ressonância, né, e não sei o que, aí eu falei, tá, entendi, Deus, acho que não é a minha hora, eu vou ter que ficar aqui, mas então vamos fazer trato. Devolve meus movimentos, devolve que eu vou passar a minha vida inteira ajudando as pessoas, da melhor maneira que eu puder. E aí, eu fui pro exame e quando eu voltei, enfiaram uma agulha no meu pé e eu gritei. E aí, a sala de emergência inteira comemorou porque tinha sido choque medular. Então, eu perdi por mais ou menos seis, oito horas todos os movimentos, toda a sensibilidade. Depois, os axônios dos neurônios foram religando e eu fui retomando os movimentos. E aí, eu defini nessa hora, assim... Eu tava meio na dúvida.

Luiza Queiroz 08:04

Foi definido por você.

Karina Oliani 08:05

É, eu falei, eu vou fazer medicina que eu vou conseguir ajudar mais gente.

Arthur Mello 08:10

Essa história eu não conhecia. Começamos bem a primeira pergunta, mas... Você fala muito da sua filha, né? E daí, agora você comentou que na sua família você não... Você não teve, vamos dizer, .. Não tinha ninguém que era aventureiro que nem você. Na sua família, com a sua filha, você tem uma pessoa... Ela tem uma pessoa aventureira, né? Então, assim, a pergunta é, depois disso, você vendo a tua filha crescendo, você acha que uma pessoa nasce pronta ou ela fica olhando alguma coisa, nem que seja de forma inconsciente, e que torna ela aventureira no seu caso ou qualquer outra coisa?

Karina Oliani 08:44

Eu acho que cada de nós, a gente vem com uma missão pra cá e todos nós somos únicos na nossa maneira. É claro que o meio influencia muito, mas eu, por exemplo, se eu só estivesse olhando, não teria o que me levava, assim. Meus pais nunca acamparam, nunca dormiram numa barraca. Eu não tinha alguma pessoa que se arriscava na minha família pra eu falar ou que fazia esportes extremos, nada disso. Então, acho que foi uma coisa que realmente nasceu comigo. E que eu gostava de uma certa forma, mas foi aumentando, cada vez eu gostava mais, era onde eu me encontrava. A Cora, ela vai ter desde pequena uma referência de esporte de aventura forte, ela já viu praticamente ski, kite, canoagem, trekking, montanha.

Luiza Queiroz 09:30

E ela gosta.

Karina Oliani 09:31

Ela gosta. Ela é bem... Assim, ao mesmo tempo que ela é bem menininha ela adora boneca, maquiagem, vestidos, pentear as barbs dela. Mas a hora que ela vai pro meio do mato, pra aventura, ela é super resistente. Ela não reclama, pra ela tá tudo bem. Ela gosta, ela curte. Ela tá ali no veleiro, o veleiro batendo, ela tá achando o máximo. Então, eu acho que ela já tem pouco disso dentro dela, assim, né. E eu fico super orgulhosa.

Luiza Queiroz 09:59

Eu acho que tem pouco de admiração. Ela vê você fazendo, talvez ela, tipo, se a minha mãe consegue e faz, tipo, eu... Também é possível eu fazer, né? Eu acho que deve ter pouco de você... Porque você não tinha esse exemplo, então você foi desbravando. Ela, você já quase que desbravou pouco pra ela e ela vai descobrindo. Ela tem que ir com pouquinho menos de medo, talvez.

Karina Oliani 10:18

É, eu acho que como ela olha e fala assim, minha mãe tá fazendo aquilo, então aquilo é normal, então eu também vou fazer.

Luiza Queiroz 10:23

Ou não é tão perigoso, ela nem deve dimensionar, talvez, o perigo do que ela tá fazendo, mas é legal, interessante. E antes de você escalar o Everest, você passou alguns meses acompanhando no acampamento base, como médica, estudando vários alpinistas que não chegavam ao cume. Que é engraçado, às vezes a gente gosta de estudar os casos de sucesso e não os que não conseguiram. O que você acha que se descobriu ali?

Karina Oliani 10:56

Em 2010, o David Breashears, que era alpinista muito famoso, ele me contratou como médica do Dick Bass, que foi o primeiro ser humano a fazer os sete cumes. E aí, eu fiquei lá trabalhando com ele, pra ele, e foi uma oportunidade muito boa, porque eu, como médica da equipe, eu via tudo que dava errado, né? As pneumonia, de tudo. Então, edema cerebral, os frostbites, até as coisas mais simples, mas que também estragava, por exemplo, a expedição, né? O cara não conseguia ir no banheiro, tinha uma hemorróida, tinha que ir embora pra casa, então... E aí, eu comecei a falar, olha, se você conseguir prevenir tudo isso e se manter saudável, são os que conseguem chegar, porque no fim das contas, monte de gente forte que teria condição de chegar, não chegam por motivos bobos. De uma bolha no pé a uma hemorróida. Então, assim, dá pra você prevenir. E aí, eu acho que o fato de ter me especializado em medicina de altitude, medicina de alta montanha e ter essa bagagem quando eu fui pro Everest, fez com que eu conseguisse prevenir muita coisa e me manter saudável e forte pra fazer o ataque ao cume.

Luiza Queiroz 12:08

É, e você tinha experiência de alguém que também fazia, então você não estava lá só observando, você já tinha posto o seu corpo por aqueles... O que estava acontecendo. Você, por ser médico, você sabe exatamente o que está acontecendo com o seu corpo, quando você escala ou quando você está numa aventura. Você acha que isso ajuda ou atrapalha?

Karina Oliani 12:26

E eu acho que o que ajuda na montanha é você não deixar a sua mente ou o seu medo tomar conta de uma forma negativa, né? Então, é engraçado, eu tava falando recentemente, assim, poucas pessoas, as pessoas me acham muito corajosa. Elas falam, você não tem medo de nada? Eu falo, não tenho medo de nada do que você tá olhando, né? Eu tinha pavor de falar em público. Pavor de falar na câmera, pavor mesmo, assim, de estar em cima de palco, contratada pra uma palestra, começar a tremer, minha voz perder e falar, gente, desculpa, eu vou ter que descer. Assim, nesse nível. E câmera também, quando ligavam a câmera e davam ação, aí eu começava a gaguejar, esquecia o que eu tinha que falar, mesmo que era uma frase, uma coisa horrível, horrível. Só que, mesmo esse medo sendo muito grande, eu não deixei que ele me parasse. E se eu deixasse que ele me parasse, imagina, eu não teria tido todos os meus programas de TV, as séries que eu fiz, né? Tipo, quer queira, quer não. Eu escalei o Everest, escalei o K2 e tudo que me permitiu com que eu conseguisse patrocínio e viabilizar financeiramente todas essas grandes expedições foi a TV. Porque eu conseguia os patrocínios e viabilizar financeiramente, porque eu ia dar exposição de mídia. Então, o fato de eu não ter deixado o meu medo me travar e ter enfrentado ele cara a cara, eu acho que foi muito importante pra minha vida. Eu nunca... Hoje, me fizeram contar quantas empresas eu dei palestra, eu já estive em mais de 300 empresas, né? Das maiores do Brasil. Imagina a Karina de antigamente pensar que eu ia subir num palco circular que não tinha onde eu encostar, que ia ter gente me olhando 360 graus e que eu ia estar lá no meio falando mais de uma hora pra 3 mil pessoas. Eu não imaginava isso. E aí eu acho que hoje em dia eu até me considero mais corajosa, porque eu sei o tamanho do meu medo e ele era enorme e mesmo assim eu enfrentei. E eu acho que é bem isso, assim, a coragem ela não é ausência do medo, né? Ela é quando você tem, mas você decide conscientemente enfrentar e superar ele.

Arthur Mello 14:36

A Virginia Woolf, ela escreveu ensaio, tá num livro, né, no Um teto todo seu, e ela escreveu que o que faltava às mulheres não era talento, era dinheiro e lugar pra trabalhar, né? Isso foi em 1929, só pra também dar o contexto. Você mandou o teu projeto pro Everest pra essas 300 empresas, você já comentou, e só três responderam. Quanto que da sua carreira, foi decidido na montanha, seus sucessos, e quanto que foi decidido numa sala de reunião?

Karina Oliani 15:08

É, por mais que ela é de 1929, mas é engraçado que não mudou tanto, né? Mudou em partes, assim. Eu acho que as mulheres ainda estão conquistando os seus lugares. Eu digo por mim mesma. Quando eu me tornei pilota de helicóptero, em 2006, eu entrei e falaram assim pra mim, você tá na sala errada. Aqui não é a sala de comissárias. Aqui é o curso de piloto. Eu falei, não, então eu tô na sala certa. Então, já tinha aquela coisa. E isso foi uma das coisas suaves, assim, que só me falaram que eu tava na sala errada. Eu tenho uma lista aqui, né, de coisas que me falaram que aquilo não era pra mim, ou que eu não conseguiria, ou que eu ia me matar. E isso, na verdade, em vez de me afastar do meu objetivo, fazia ficar mais gostoso pro meu tipo de personalidade. Eu gosto de ser desafiada. Eu gosto quando as pessoas falam, ela não vai conseguir. Porque eu falo, então tá bom, me assiste. Pra mim mesma, quando negócio é muito difícil, eu fico muito mais motivada em conseguir fazer o negócio do que quando eu não acho difícil. Então, assim, se talvez você me colocar pra escalar uma montanha que eu sei que eu vou fazer, talvez eu não vou fazer ela com... Talvez eu nem faça ela, se me der uma dor de barriga no meio, eu falo, tá bom, tá tudo certo, vamos parar, não tá valendo. Mas se for uma montanha muito difícil e que eu tive que me dedicar muito, eu vou dar tudo de mim. Eu gosto de coisas difíceis, eu sempre fui, desde pequena, eu sempre fui assim. E essa frase dela é engraçada, porque eu acho que homens e mulheres, independente de gênero, tem pessoas extremamente talentosas, né? E às vezes elas não podiam colocar esse talento em prática justamente por serem mulheres. Eu escalei com uma guia de montanha, que pra mim, ela é uma das melhores montanhistas do mundo, ela é guia UIAGM da Suíça, ela foi uma das primeiras a conseguir essa certificação lá. E ela falou que as mulheres não eram aceitas no clube alpino suíço, os cachorros eram. Então, os cachorros podiam ter carteirinha dentro do clube alpino e podiam ser considerados membros e entrar no clube alpino, as mulheres não podiam.

Arthur Mello 17:17

E quando que isso mudou?

Karina Oliani 17:18

Não faz tanto tempo, cerca de 50, 60 anos atrás, né, coisa recente. Até hoje em dia, eu tava falando com amigo meu, que é baita urologista, eu perguntei assim pra ele, porque a gente tem ótimos ginecologistas obstetras homens, né, mas eu pergunte assim pra ele, a semana passada ali no Sírio, a gente tava na sala de cirurgia e eu falei, quantas mulheres fazem esse mesmo tipo de cirurgia que você faz? E ele parou assim e falou, eu não acho que tem nenhuma mulher no Brasil que faz esse tipo de cirurgia. Então, tem algumas coisas que são extremamente mundos ainda, que são muito masculinos, a própria política, né, se a gente relembrar pouquinho os dados, assim, até hoje. Quantos presidentes homens nós tivemos, quantas presidentes mulheres nós tivemos, e a gente vê que, assim, é uma luta, a gente ainda tá lutando pra conquistar o espaço, mas eu acho que tá sendo feito de uma forma legal, assim, e que tá sendo conquistado a cada ano, a gente tá abrindo, realmente, território pras próximas gerações.

Arthur Mello 18:18

E quando você estava comentando agora, né, dos espaços das mulheres, eu lembrei de livro de escalador americano, que foi o primeiro que escalou todas as montanhas acima de 8 mil metros sem oxigênio, o Ed Viesturs. E num desses livros ele fala muito da Chantal, da francesa, ela... Era considerada uma figura polêmica, e eu acho que ela era uma figura polêmica per se, só porque ela era uma mulher talentosa num mundo só de homens. E parte, agora lendo e pensando nisso, parte do sucesso dela era sempre... As pessoas não davam muito crédito pra ela, sempre acusavam que ela tinha ajuda a mais dos Sherpas, que colocavam as cordas pra ela, que ajudavam ela a descer a montanha. Tem uma passagem que o Ed supostamente ajuda ela a descer, que ela tem edema pulmonar, se eu não me engano. E o Ed Viesturs fala que ele ficou muito magoado, que ela não agradeceu ele. E hoje, depois de tanto tempo, eu leio isso com outros olhos. E, enfim, você nessas escaladas, você teve sucesso, né? Eu queria que você comentasse e fizesse, não sei se você já fez esse exercício. Quando homem tenta escalar, não consegue e tem, às vezes, até alguma coisa ruim na montanha, esse homem é herói, né? Tem o Irvine, o herói até hoje, e ele morreu escalando Everest, fazem expedições, etc. Como que você acha que seria se fosse com você? Hoje você é uma pessoa reconhecida, a gente falou sobre você, todos esses seus feitos e conquistas. Mas o que seria, pensando na Cora, se tivesse acontecido alguma coisa ruim? Como que você acha que seria essa recepção pra Karina?

Karina Oliani 20:20

É engraçado você falar isso, porque não é pra Karina, é pra mulher. Tipo, se cara, ele é chato, ele é detalhista, as pessoas vão falar que, nossa, ele é caprichoso, ele é detalhista. A mulher, ela é intransigente. Se cara, ele é nervoso, não, ele é preocupado, ele é atencioso, a mulher ela é recalcada. Então, assim, os adjetivos, eles mudam de acordo com o gênero. E é engraçado você ter falado isso, porque eu subi o K2 com parceiro, homem, Eu tava com o Sherpa, ele também estava usando o meu Sherpa tanto quanto eu, ou seja, a gente tinha Sherpa, estávamos escalando em três, grupo muito pequeno. E aí teve grande avalanche, e nesse grande avalanche todo mundo desceu e foi embora. Porque eles entenderam que a montanha não queria ninguém lá, e que tava uma temporada muito perigosa, e realmente a gente via, assim, muitos avalanches por dia. E o pessoal falou, puxa, vamos embora que não tá valendo a pena o risco. Mas alguma coisa me dizia que eu... Eu tinha que escalar e eu tinha que estar lá. E eu tenho muito essa coisa de me ouvir, né, ouvir a minha espiritualidade, ouvir os meus guias, enfim, cada acredita numa coisa, mas eu tenho isso muito forte. E eu pedi sinal e eu sou apaixonada, assim, tarada por arco-íris desde pequenininha. Eu vejo arco-íris, eu saio correndo, quase sou atropelada, eu amo arco-íris. E eu tava pedindo sinal. Eu falei, olha, eu entendo que se a montanha não me quiser aqui, eu preciso de sinal que é pra eu ir embora. Mas se a montanha me quiser aqui, eu preciso de sinal que é pra eu subir. E, de repente, eu olho pra trás. Na verdade, assim, eu tava caminhando. E pela primeira vez, a minha bota tripla, eu pisei num lugar que o gelo tava super grosso e o gelo quebrou. E aí, eu caí na água. E a hora que eu caí na água, toda molhada, né, imagina aquela temperatura ali, menos 10, você numa água congelada, eu tava toda... Aí, a pessoa que tava escalando comigo falou, olha pra trás, olha pra trás. Aí eu olhei pra trás, assim, tinha arco-íris e eu nunca tinha visto arco-íris reto na minha vida, só que ele era muito forte, muito lindo, e todas as cores do arco-íris, e o arco-íris não era arco, era negócio reto. Só que, tipo, o jeito que ele tava reto, ele tava apontando pro Cume do K2. E aí, tipo, eu fiquei muito emocionada, porque eu falei, pera, vocês só pegaram uma coisa que eu mais gosto na vida, que é arco-íris, e apontaram pro Cume do K2, que é pra falar que, tipo, eu poderia ir, que eu tinha licença pra ir. E eu fiquei muito animada, e aí, a gente, todo mundo desceu, né? Tinha 120 escaladores estrangeiros, e 100 foram embora, e 20 ficaram. E aí, o Nimsdai chegou. E quando o Nimsdai chegou, com os Sherpas dele super forte, ele tava fazendo.

Arthur Mello 23:22

O... Você aparece no documentário dele, né?

Karina Oliani 23:26

Eu apareço no documentário dele. E ele chegou comemorando, com uma super energia, com monte de Sherpa forte, equipamento novo e tal. E ele trouxe uma coisa muito legal pro campo base, assim, porque tava todo mundo indo embora e os que tavam ficando, tava meio tipo... Ai, será que eu tô ficando pra morrer? Tava clima bem pesado, assim. E quando ele chegou, ele abriu as cordas e eu perguntei pra ele, eu falei assim, ele falou, eu vou fixar as cordas, eu falei, eu posso escalar com você? Ele falou, não, você pode escalar dia depois de mim, você pode vir dia atrás, venham atrás, mas não escalem comigo. E eu falei, pra mim tá ótimo, obrigada. E nisso eu virei pro meu parceiro e falei, olha, eu vou subir. E ele falou, eu acho você uma doida, tá todo mundo indo embora, a gente acabou de subir o K2, você quer subir o K2 de novo amanhã?

Luiza Queiroz 24:12

A médica e a alpinista discordaram aí nesse momento ou foi você viu o arco-íris e seguiu sua intuição?

Karina Oliani 24:18

Não, eu vi o arco-íris e eu tava feliz e eu queria subir. Então, tipo assim, eu tava muito forte, eu queria subir. Pra mim, eu ia subir. E aí ele falou, eu não vou subir. Eu falei, não tem problema.

Arthur Mello 24:29

Isso era no acampamento base?

Karina Oliani 24:30

No acampamento base. Eu falei, não tem problema. Eu te convidei pra escalar comigo, mas estamos escalando de maneira independente do jeito que a gente combinou. Se você tiver acidente, eu te ajudo. Eu espero que você me ajude se eu precisar, mas você pode ficar aqui no campo base em segurança e eu vou subir com o sherpa. Ele falou, não, então eu também vou e não sei o quê. E fomos. E eu tenho uma coisa assim que no começo, até 5, 6 mil, eu fico muito fraca. Meu físico sofre com altitude, mas depois que eu passei de 6 mil, eu fico muito mais forte que 90% das pessoas, eu fico rápida. E eu subi super rápido, eu subi na velocidade do meu Sherpa pro K2, assim, eu fui... Naquele dia eu fui uma das primeiras pessoas a chegar no cume do K2, e essa outra pessoa não estava tão forte. Então, tipo, foi uma pessoa que foi subindo mais devagar, e aí botou a culpa no oxigênio, e aí reclamou, e não sei das quantas. E quando a gente desceu. O Sherpa desceu, não sei das quantos, e alguém perguntou assim, a Karina chegou no cume do K2 e ela tava bem? E aí a resposta foi assim, tava, né? Mas também tinha Sharpa carregando as coisas dela.

Luiza Queiroz 25:39

Resumiu tudo o que você fez.

Karina Oliani 25:41

Então, basicamente, é isso. Se você escala super bem, escala bem, ninguém vai falar, ela realmente é mais forte que eu, ela realmente escala melhor que eu, acima de 7 mil. Nunca vai ter. Vai ter sempre uma tentativa de diminuir, né? Eu acho que pode ser que tenha uma outra pessoa hoje que fale realmente o que as mulheres merecem, mas é muito raro você encontrar isso.

Luiza Queiroz 26:06

E foi essa escalada que você estava... Acho que você tinha acabado descobrir que você tinha a doença de Lyme. E você estava com princípio de edema pulmonar.

Arthur Mello 26:18

Nisso você tava forte. Quando que você tava fraca, Karina? Me conta, assim, quando que você tá fraca?

Karina Oliani 26:25

Olha, é engraçado, né? Mas eu tenho uma coisa, assim, de tipo, enquanto eu tô de pé, enquanto eu tô com saúde, enquanto eu abri o olho, assim, tá tudo bem. Acho que esse dia que eu descobri a tetraplegia, realmente eu falei não, agora não tá tudo bem. Mas de resto, tá sempre tudo bem.

Luiza Queiroz 26:45

Você comentou que nessa escalada várias pessoas desistiram e voltaram. Tem podcast, que eu não sei se você conhece, que eu sou muito fã, chamado The Emergency Mind, que é do Dan Dworkis, se eu não me engano, que ele é médico emergencista lá nos Estados Unidos. E o que eu gosto dele é que ele, enfim, ele entrevista várias pessoas, ele fala do trabalho dele, mas menos sobre a medicina e mais sobre como você prepara time pra talvez trabalhar sob pressão. Muitas vezes você não conhece o que você tá fazendo, você tá fazendo aquilo pela primeira vez, lidando com aquela situação pela primeira vez, E eu queria te perguntar exatamente isso, no alto da montanha, o frio e o ar rarefeito, eu sei que ele reduz a capacidade talvez do nosso raciocínio, né? E aí é justamente quando você precisa tomar as decisões mais difíceis, é quando talvez mentalmente e fisicamente você está mais incapaz de tomá-las. Como que você treina a sua cabeça para decidir bem no ambiente que trabalha contra a sua cabeça?

Karina Oliani 27:38

Fazendo aquilo, se colocando toda hora em situação desconfortável, dando toda hora a cara pra bater. Eu lembro que eu te falei que quanto mais difícil era o negócio, desde pequena mais eu gostava. Na hora eu não gostava, eu era zoada, eu caía, eu me machucava, eu não conseguia, eu falava por que eu escolhi isso, mas depois isso foi me tornando uma pessoa que É difícil, assim, eu me dar por vencida. É difícil eu falar, cair e não vou levantar. Eu caio bastante, igual qualquer mas eu levanto, e levanto rápido.

Arthur Mello 28:13

Você tem mais prazer se preparando? Você manda as apresentações, treina, até a própria montanha, é processo. Você sobe e desce, tá no base, vai até o campo 2, 3, desce tudo de novo. Então é negócio, exercício de paciência também. E como você falou, às vezes você precisa esperar, a montanha tá pronta pra você, você tá pronto pra montanha. Você tem mais prazer nessa preparação Ou quando você chegar lá em cima, lá, passou, tá no final do degrau Hillary, e você fala assim, beleza, cheguei.

Luiza Queiroz 28:56

Valeu a pena.

Arthur Mello 28:57

Valeu a pena. Onde que dá mais prazer?

Karina Oliani 28:59

Eu gosto de escalar, eu gosto do processo. Eu gosto de quem eu me torno quando eu tô, por exemplo, agora eu tô com esse desafio, né? Levantando lá os meus pesos e aí tem onde eu quero chegar. Eu gosto de, tipo, ficar dolorido e ter que treinar e ter que pegar peso e não conseguir e aí cada semana ver aquela evolução, mas é claro que quando você tá chegando lá em cima e tá vendo o seu objetivo se aproximando depois de tantos anos sonhando com aquilo e finalmente aquilo tá se tornando realidade, é mágico também. Então, são momentos distintos, mas eu acho que eu gosto das duas etapas.

Arthur Mello 29:37

Eu tenho uma curiosidade, essa é a primeira vez que eu converso com alguém que escalou o Everest. Como eu falei, eu já li tantos livros e fotos e hoje em dia você consegue ver vídeos, coisa que 20 anos atrás não existia, esse tipo de coisa de levar uma câmera lá pra cima. É uma curiosidade. Desde você chegar em Kathmandu até você passar o degrau Hillary, qual que dessa cena do Everest pra você é a mais bonita? Qual que é o lugar mais bonito que você sente saudades, que você gostaria de ver aquela coisa de novo?

Karina Oliani 30:17

Você sabe que o degrau Hillary não existe mais, né?

Arthur Mello 30:19

Caiu tudo depois do terremoto, né?

Karina Oliani 30:22

É, do terremoto. Então, quem escalou com o Hillary escalou. E eu ainda fui uma das últimas, né? Porque em 2015 ele desabou. Olha, é difícil, porque assim, a face norte do Everest também é espetacular, que você vai ali pela China, né? Pelo Tibet, que eu escalei depois em 2017 pela face norte. Eu amo vários trechos da Montanha. A Khumbu Icefall que todo mundo fala, né, que é mortal e tal, mas é linda. E ela é linda proporcionalmente perigosa, sabe? Muito linda e muito perigosa. Geralmente... Esses são os preços da vida, né? Vocês aqui no escritório de investimento, vocês sabem que você vai ganhar muito mais naquele papel que também tem risco muito alto. Então, geralmente, a montanha é parecida, porque... Recompensa. É, quanto mais linda a montanha, mais escarpada, mais íngreme, mais perigosa ela é também, maior o risco de avalanche e o Everest, ele tem vários trechos lindos, vários. O Western Cwm ali, né, que depois que você chegou no Campo 2, puxa, aquele lugar é lindo, você olha, tem o Nuptse aqui, o Lhotse na frente, o Everest na esquerda e aqueles blocos de gelo assim, parece escultura, é uma coisa... É maravilhoso, aquele gelo azul, assim, que você sabe que é gelo de milhões de anos. É muito mágico. Não só o Everest, né? Tem muitas montanhas maravilhosas por aí, mas é que a gente tá falando dele.

Arthur Mello 31:51

Como que é quando você termina alguma dessas expedições? Quando você volta... Pra realidade. Eu, particularmente, eu nunca escalei, eu sou medroso, tenho medo de altura, mas eu fui pro Nepal e eu fui até o acampamento base do Annapurna, que sempre foi o meu sonho. Eu tenho uma tatuagem escrito Annapurna. E eu lembro quando eu tava voltando, depois de passar dias na montanha, eu particularmente senti vazio enorme. Eu senti que eu tinha ido pra lugar e aquele lugar eu nunca mais ia alcançar ele de novo. Eu queria saber se isso é mal da montanha. Você sente esse luto também?

Karina Oliani 32:37

Não dá tempo, porque quando eu tô descendo uma montanha, eu já programei a próxima.

Arthur Mello 32:41

Entendi.

Luiza Queiroz 32:42

Talvez esse seja o truque.

Karina Oliani 32:44

É tipo, eu saio de uma, eu vou pra outra, eu saio de uma. Quando eu era pequena, era diagnosticado como hiperatividade, hoje eu sou uma pessoa que faz bastante coisa. Mais ativa. Fala pra você quando você volta de.

Luiza Queiroz 32:57

Férias, assim, que você fica com aquele puto, você acabou as férias, você já tem que começar a programar a próxima.

Arthur Mello 33:02

Sim. E qual que é a próxima?

Karina Oliani 33:04

A próxima é na Antártida. Eu tô indo agora no final de novembro escalar o Monte Vinson, que é a montanha mais alta do continente Antártico. Vou guiar cinco pessoas, cinco escaladores brasileiros pro Cume.

Arthur Mello 33:17

Você quer fazer os sete cumes?

Luiza Queiroz 33:19

É, eu ia te perguntar. Como você tá nisso?

Arthur Mello 33:22

Você foi médica do cara que inventou isso. Dos set, quais você já fez?

Karina Oliani 33:27

Olha que engraçado, né. Quando o Dick Bass… Quando eu trabalhei como médica dele e tal.

Arthur Mello 33:32

Mas ele já tinha escalado, certo?

Karina Oliani 33:33

Já, já tinha escalado. Ele me deu livro e ele escreveu na capa do livro uma dedicatória pra mim. Ele falou, Karina, eu espero que você seja a primeira mulher do seu país a fazer os sete cumes. E naquela época, eu fiquei animada com isso e era realmente objetivo. Mas depois eu falei assim, puxa, eu não escalo por objetivo imposto, eu escalo porque a montanha me chama. E tem algumas montanhas que me chamam que não tem nada a ver com os sete cumes e, pelo contrário, os sete cumes virou uma coisa muito comercial e a maior parte das montanhas, infelizmente, inclusive o Everest, estão com filas gigantescas. Todo mundo sabe disso. Não deixa a montanha menos ou mais bonita, mas deixa a montanha perigosa. Porque nessas filas tá cheio de gente que não deveria de estar ali.

Luiza Queiroz 34:17

Né?

Karina Oliani 34:17

Que tão fazendo fila e que se cai, leva a corda e faz efeito dominó e derruba todo mundo. E quando eu tô na montanha, eu gosto de estar mais sozinha, é mais desafio. Eu, meu duplo ali, no máximo meu parceiro, não é uma coisa que eu quero estar, senão eu iria pra show de rocker, né? Se eu quisesse multidão. Então, eu tô escapando pouco dessas montanhas mais lotadas, sabe? Tanto é que eu escolhi uma data lá no Vinson, que é uma das datas que tá mais calmo ainda. Menos gente. Mas eu já escalei o Kilimanjaro, eu fiz Kilimanjaro duas vezes, eu fiz Everest duas vezes, eu fiz o Aconcagua, eu fiz o Elbrus. Tô indo fazer o Vinson. Vai faltar o Denali e o Carstensz. Tá quase lá, então. É.

Luiza Queiroz 35:09

A gente falou aqui de vários exemplos de sucesso, né? E eu acho que aqui, trazendo pouco para o nosso mundo, na economia comportamental, a gente sabe que quando a gente está sob estresse, o córtex pré-frontal perde espaço para respostas mais reativas, né? Aquele luta ou fuga que a gente conhece. Mas na montanha, erro de cálculo cognitivo assim pode custar uma vida, né? Eu queria entender se teve alguma expedição que você deu meia volta, que você desistiu, que você viu que não valeria o risco, se é que isso aconteceu.

Karina Oliani 35:39

Há várias, e principalmente quando eu tava com outras pessoas e a vida delas em jogo, e eu falei, não vale a pena, não vale a pena colocar essa pessoa em risco, tô com ela, a gente é uma equipe, vamos voltar por mim também, já dei meia volta.

Luiza Queiroz 35:53

E como é comunicar isso? Tipo, você às vezes como você lidera times que vão escalar, é difícil essa comunicação de falar, gente, eu estou tomando a decisão de voltar. Porque às vezes as outras pessoas que sejam menos experientes que você queiram, não, a gente é capaz, a gente quer seguir adiante e você que tem que tomar a decisão.

Karina Oliani 36:09

Comigo é o contrário, eu acho que eu sou a última que fala. Alô, agora a gente vai voltar. Então, eu acho que quando eu tomo essa decisão já tá todo mundo assim, graças a Deus que ela escolheu, sabe?

Luiza Queiroz 36:19

Entendi.

Karina Oliani 36:20

É meio que o contrário, assim, eu só tomo quando eu realmente vejo que tem risco ali. E claro, eu não sou... Por exemplo, já teve uma pessoa, eu tava a 8.300 metros de altitude no meio da madrugada.

Arthur Mello 36:35

E só onde?

Karina Oliani 36:36

Lá no Everest, na face norte, em 2017. E a pessoa tava completamente fora da casinha, né? Fazendo... Andando tudo torto, em sinais claros de edema cerebral, que a gente chama de HACE. E eu implorei pra ele voltar e ele começou a agredir, né? E a hora que ele começou a agredir eu falei, tá bom, eu não sou polícia, eu sou médica, eu tô falando uma coisa pra você.

Arthur Mello 37:00

Mas ele era da sua expedição.

Karina Oliani 37:02

A gente tava dividindo, ele não estava escalando comigo, a gente tava dividindo o suporte de acampamento base. Então, ali no acampamento base a gente comia na mesma cozinha, a nossa barraca era perto uma do outro, dividia o meu chuveiro.

Arthur Mello 37:15

Vocês fixavam as cordas juntos?

Karina Oliani 37:18

Não, quem fixou a corda foi outra equipe. Mas a gente, enfim, tava dividindo ali, então a gente se conhecia. E ele me contou a história da filha dele, mostrou as fotos da filha dele. Perguntou da minha família, a gente bateu papo pelo menos umas três vezes. Então, a hora que eu vi ele naquela situação eu falei, olha, Tipo, volta pra sua filha, né? Não vale a pena. E ele ficou extremamente agressivo. Ele falou assim, quem é você pra me falar isso? Você acha que só porque você já escalou uma vez, agora você é expert? Começou assim... E no final, caiu, tal, tentou bater na gente, bater no meu Sherpa pra bater em mim. Eu falei, olha, fica aí, faz o que você quiser. De repente, né, a gente vai encontrar corpo no meio do caminho, na descida. E dito e feito, escalei, fiz cume, eu e o Pemba, a hora que a gente voltou, ele tava lá deitado, caído no campo 4, os Sherpas ficaram 8 horas. Todo o tempo que eu fiz cume e desci, os Sherpas ficaram só pra levar ele de volta pro campo 4. Depois, os Sherpas demoraram mais 2 dias pra levar ele pro campo 2. E depois ele demorou mais 2 dias pra chegar no campo base. Ou seja, ele arriscou a vida de monte de gente pra resgatar ele. Sendo que ele podia ter escutado e ter voltado enquanto ele ainda estava em condição de se manter em pé, mas...

Luiza Queiroz 38:34

Pra quem não conhece esse mundo, o que é o Sherpa? Quem é o Sherpa.

Karina Oliani 38:37

O Sherpa é uma etnia. São essas pessoas que nasceram Sherpa. Sherpa é lugar e Sher é leste. Então, é o povo do leste. E, na verdade, é o povo que estava no Tibete e cruzou ali os passos das terras mais altas e foram pro Nepal. E eles são uma das várias etnias que tem no Nepal. Eles moram nas terras mais altas do mundo, né? E os Sherpas são conhecidos por serem os melhores escaladores de altitude do mundo. Eles têm vantagens genéticas sobre a gente. Eles são ótimos, maravilhosos na montanha. E seres humanos lindos também.

Luiza Queiroz 39:14

Uma coisa interessante que eu descobri pesquisando pra nossa conversa é que a maior parte das fatalidades que a gente ouve acontece na descida e não na subida. E eu fui pega de surpresa com essa informação. Não sei se é óbvio pra todo mundo, mas pra mim não era. E eu acho que é porque talvez o corpo e a cabeça já estão desgastados, E aí eu queria saber, tem algo que você guardava dentro de si, ou energia, ou mental, que você sabe que você ia precisar na volta, né? Porque às vezes a gente vai com tanta sede ao pote, a gente dá tudo de si pra chegar no objetivo, e aí, principalmente nesse esporte, você tem que voltar tudo que você foi.

Arthur Mello 39:51

Eu queria completar com essa pergunta que tem alguns, pelo menos escaladores, que colocam tempo limite. se eu não chegar no cume até meio-dia, onze da manhã, eu volto, não importa o que aconteceu. Você tem isso também?

Karina Oliani 40:05

Tenho. A gente, todas as nossas escaladas de 8 mil, a gente delimitou tempo limite, eu acho isso muito saudável, muito importante, porque te coloca aí algumas referências, o tempo muda, o tempo fecha, e quando você tá ali quase chegando, O emocional. Exatamente, falar mais alto. Então, acho muito importante fazer isso, acho que realmente salva vidas, né, desde que a pessoa siga. E realmente, é na descida, né. É engraçado, eu tava semana passada no Egito, num campeonato mundial de apneia. E eu fiz a... Eu falei pro pessoal, poxa, eu desci super bem, mas cheguei lá embaixo e tinha que subir tudo de volta. E eu desci com o ar que eu tinha e esqueci que faltava tudo isso pra subir, né? Eles falaram, ué, quando você escala, você não sobe e aí quando chega lá em cima não tem que descer tudo. Então, é isso, você tem que guardar.

Luiza Queiroz 40:57

É isso que você estava acostumada, o inverso.

Karina Oliani 40:59

O inverso. Vamos lembrar disso. E na montanha, o que acontece, né? Quando você chega lá em cima, é... Você tem aquele descarga de adrenalina, você comemora e muita gente fala, cheguei, chegou nada, você tá no meio do caminho. Tem toda descida, porque pra você falar que você escalou uma montanha, você tem que voltar não de helicóptero, né? Você tem que voltar andando pro campo base. Tanto é que tá cheio de polêmica aí agora, a galera que... Pega o helicóptero do Campo 2 e desce, aí falam que eles não escalaram. E realmente, por definição, no montanhismo você tem que subir e descer a montanha com os seus meios, e não com o helicóptero e falar, né, sobe lá, imagina, sobe no cume do Everest, boa de helicópteros, mas eu escalei.

Arthur Mello 41:44

É, junto com essas polêmicas, eu vi que tá tendo umas polêmicas de, né, que esse, né, os escaladores sempre tiveram esse código, né, de honra, de conduta, que, né, não tem ninguém pra provar que você tava lá no 8 mil metros. Eu não me lembro do nome daquela senhora que mora lá em Katmandu. Não sei se ela tá viva ainda.

Karina Oliani 42:03

Liz Hawley. Não, não tá.

Arthur Mello 42:04

Que ela era, né, a pessoa que definia, sabe? Me conta o que você viu no topo do, sei lá, do K2. Daí ela dava o ok ou não. Mas que eu vi gente, né, desses escaladores de hoje em dia que estavam... usando esses subterfúgios, né? De roubar na montanha. Usar coisas que não eram usadas antigamente, e também de mentir, e que a mentira... O que estavam falando era mais na parte não de escalada de montanhas altas, mas mais nessas escaladas do Alex Honnold da vida, de escalar pedra, de falar, não, eu consegui chegar por tal rota. Então, e você comentou sobre essa parte comercial, né? Então eu queria que você também falasse isso, porque você é uma escaladora profissional, que vai lá, escala, mas você também lidera, então você convive com os dois mundos. Eu queria que você falasse pouco disso, dado que virou uma coisa... No mundo performático de hoje em dia, as pessoas querem cada vez mais provarem que chegaram nos lugares e hoje em dia você consegue mandar uma selfie lá do alto da montanha. Então eu queria que você falasse, dado que você tá nesses dois, enfim, nesses dois mundos, você convive com esses dois mundos e, enfim...

Karina Oliani 43:28

É engraçado você falar desses mundos, porque realmente eu... Teve uma das temporadas, eu vou praticamente todo ano pro Nepal com grupos, né? E teve dos grupos que eu levei que a menina fazia muita foto, mas muita foto mesmo. E aí teve momento que a gente subiu uma montanha e ela foi fazer uma foto e ela deixou o celular cair entre a rocha. E não tinha como pegar, eram duas rochas gigantes, não tinha como passar o braço, não tinha como acessar embaixo, não tinha e ela perdeu o celular. E a partir do momento que ela perdeu o celular, ela não quis seguir. Ela, eu não quero mais, eu não quero mais. A gente falou assim, pera, o Everest falta dois dias, você tá adorando a trilha, você tá amando.

Luiza Queiroz 44:08

Tem outra pessoa pra tirar foto pra você.

Karina Oliani 44:10

Você tá amando, mas ela assim, ela ficou tão arrasada que ela perdeu as fotos, que aquilo me fez refletir bastante o resto da trilha, o quanto que ela tava escalando, porque ela gostava, porque ela queria estar ali, porque ela queria estar vendo.

Arthur Mello 44:25

Por ela ou pelos outros?

Karina Oliani 44:26

Ou o quanto que ela só queria as fotos pra postar no Instagram. E depois que ela perdeu as fotos de postagem, nem perdeu todas, porque o grupo tinha tirado monte de foto, uns dos outros, né, então... E também ela já tinha feito backup ali no iCloud das fotos do começo da viagem e tudo, então... E ela, pra ela, a viagem perdeu brilho instantaneamente quando ela perdeu o celular. Foi uma coisa que me fez refletir muito. E aí eu acho assim, quando as pessoas não estão escalando com a motivação, Não sei se a palavra é correta, porque não tem correto, tem o certo pra cada. Mas quando a tua motivação é outra, você não tá escalando pra você, pra se superar, porque você gosta de estar na montanha, você tá escalando pra provar algo pra alguém, ou você tá escalando porque você quer ganhar status, ou porque você quer falar eu sou... É engraçado, você não tem o mesmo sucesso do que uma pessoa que gosta, né, de escalar. Porque a pessoa que gosta, ela tá ali, e se ela desistir, ela vai voltar com a mesma atitude, ela já vai programar uma outra montanha, ela vai continuar fazendo, e a pessoa que tá escalando por A, B, C, ela talvez nunca volte pra montanha, né, dependendo da experiência que ela tá tendo ali. E transparece, assim, a gente depois de ir fazer trilhas, não apenas no Nepal, mas em diversos lugares do mundo com grupos de pessoas, assim, dá muito pra você perceber quando a pessoa tá ali pra provar alguma coisa pra alguém, ou quando ela tá ali porque ela realmente tá gostando daquilo e tá fazendo uma coisa pra ela.

Luiza Queiroz 46:12

Eu queria ouvir você falar, porque eu sei que você tem a ABMAR e o Instituto Dharma, que é onde você, além de médica, socorrista, aventureira, tudo isso que a gente já falou, você agora criou essas instituições pra você levar a medicina em lugares remotos. Como nasceu essa ideia?

Karina Oliani 46:30

Eu fui para os Estados Unidos, quando eu me formei em medicina no Brasil, eu fui para os Estados Unidos, fiquei três anos lá e eu fui, me especializei em medicina de emergência e resgate em áreas remotas pela WMS, a Wilderness Medical Society. Quando eu voltei para o Brasil, o meu diploma não valia nada. As pessoas falavam ser especializada, aí eu falava que eu era, eles... era como se eu não fosse, né? Então, e eu tinha que explicar o que era especialidade. O pessoal falava, Wilderness o quê? Mas o que você estudou, né? Alguns nem perguntavam, falavam, tá, não é especializado.

Luiza Queiroz 46:59

É curso.

Arthur Mello 47:00

É cursinho.

Karina Oliani 47:02

Depois de três anos, aí eu explicava, olha, medicina aeroespacial, medicina de conflito, medicina de selva, medicina de altitude, medicina do mergulho e por aí vai, cada se subespecializa e tal. Até que eu encontrei alguns colegas que gostavam das mesmas coisas, a gente era grupinho ali de quatro, cinco pessoas e a gente fundou Medicina da Aventura. E aí, juntos, Medicina da Aventura foi crescendo, a gente começou a fazer reuniões no Hospital 9 de Julho sobre os temas científicos de Medicina de Aventura, a gente começou dar cursos no Brasil, a gente começou trazer gente de fora pra dar cursos aqui e aí surgiu a ABMAR, que é a Associação Brasileira de Medicina de Áreas Remotas e Esportes de Aventura. Que eu fundei, fui a primeira presidente lá atrás, hoje eu sou do conselho, mas a ABMAR cresceu muito. Hoje, pra você ter uma ideia, nós já estamos em via de ser reconhecidos como especialidade médica no Conselho Federal de Medicina. A gente tem, dentro da Santa Casa de São Paulo, da Faculdade de Medicina, a gente já tem uma disciplina com professores da ABMAR dando aula. Então, assim, o caminho que a gente percorreu, ele é longo, ainda tem muito caminho pra percorrer, mas a gente tem compêndio médico dessa grossura, assim, de medicina de áreas remotas escrito em português por médicos brasileiros. A gente tem cursos e congressos nacionais de medicina de áreas remotas todos os anos. Então, assim, cresceu muito do que era, mas precisou de alguém que falasse, olha, vamos trazer isso para o Brasil e abrisse os caminhos. E o Dharma, ele começou há 10 anos atrás, então esse ano a gente tá comemorando 10 anos.

Arthur Mello 48:40

Você me ligou, eu tava numa conferência em Los Angeles, eu lembro, eu saí, você me ligou e falou assim, nossa, aconteceu alguma coisa. Falei assim, Arthur, eu tô começando o Dharma, tudo, foram umas fotos lindas, né, das suas expedições.

Karina Oliani 48:54

Sim.

Arthur Mello 48:54

Conta pouco.

Karina Oliani 48:56

Então, 2016... O terremoto foi em 2015.

Arthur Mello 49:00

Sim.

Karina Oliani 49:01

E depois que a gente voltou do terremoto, lá dos atendimentos e aquele trabalho que foi feito, uma pessoa me procurou, o Andrei Polessi. E ele, fotógrafo, falou assim, eu quero fazer livro de fotos. Eu falei, nossa, mas livro, né? Livro hoje em dia. Não, pra ajudar o Nepal. Eu falei, não, a gente mal vai conseguir pagar o livro como ajudar o Nepal. E no fim das contas o livro ficou tão bonito e acho que tinha plano maior por trás de tudo isso que o livro fez com que a gente reconstruísse uma escola inteira lá no Nepal, que até hoje existe, e depois ainda sobrou pra gente levar 28 médicos pro sertão do Piauí, em Acauã, num dos piores IDHs do Brasil e fazer uma expedição médica lá, e assim começou o Dharma. E hoje, esse ano, o Dharma tá fazendo 10 anos, a gente faz entre 7 e 8 ações todos os anos pros lugares mais carentes, né? Então, a gente vai pra Acre, Rondônia, Tocantins, Maranhão, Bahia. Hoje a gente tá muito focado em Brasil, mas nós já fomos pra vários lugares da África, do Sudeste Asiático, inclusive Nepal.

Arthur Mello 50:11

E como que o Instituto Dharma é sustentado?

Karina Oliani 50:16

Pelas pessoas, pelos próprios voluntários. O Dharma, desde que ele nasceu, cada paga os seus custos de viagem quando vai e ainda doa 15% pro Dharma quando eles vêm com a gente. Esses 15%, eles sabem que é pra comprar medicamento e pra sustentar o Instituto. Além disso, a gente tem os amigos Dharma que fazem doações recorrentes mensais e esses amigos Dharma geralmente são os médicos que vão. E que sabe o trabalho que a gente faz. Eles vêm uma vez, normalmente voltam pelo menos uma vez por ano e a gente tem alguns parceiros pontuais. Então, por exemplo, agora a gente estava no Rio Grande do Norte, na Paraíba, a Mitsubishi mandou os carros pra gente. Então, menos 10 mil de aluguel de carro. Então, assim, a gente tem alguns parceiros. A Canon Médico do equipamento de ultrassom pra gente, na época, valia 200 mil reais. A gente nunca ia ter dinheiro do Dharma de comprar equipamento de ultrasom tão top. Eles foram lá e, ó, toma que equipamento de ultrasom faz ultrassom nos pacientes. Aí, de vez em quando, a gente ganha doações de óculos. Aí, ganha óculos pra dois anos pra dar pra todas as ações pra todos os pacientes. Então, é...

Arthur Mello 51:23

A logística do Dharma é mais difícil que a logística do Everest, pelo jeito.

Karina Oliani 51:27

Muito mais. Bem complexa. E a logística do Dharma é engraçada, né? Porque eu gosto de planejar expedições e tudo, mas o Dharma realmente é o próximo nível. Bem colocado, Arthur.

Arthur Mello 51:45

Antes da gente encerrar, eu queria fazer duas perguntas rápidas. Eu queria que você falasse uma decisão que você tomou rápido e que deu certo e que tenha te marcado. E ao longo de todas essas suas expedições, sinal de alerta que pode ser o oposto do arco-íris, pode ser uma coisa do seu corpo, que você aprendeu a reconhecer.

Karina Oliani 52:08

Eu tinha decidido que eu ia atravessar o maior lago de lava do planeta, né? Que nunca tinha sido feito por nenhum ser humano no mundo e depois se tornou recorde no Guinness e eu previ tudo. Eu peguei a temperatura, comprei o traje da NASA, coloquei o termômetro wireless lá, levei o maior especialista de rigging, testamos lá. Eu só não previ uma coisa, que dentro da minha máscara, com os gases tóxicos no meio do vulcão, naquela temperatura, eu não poderia tirar a máscara e meu nariz começou a sangrar. E o sangramento do meu nariz, por conta dos gases tóxicos, tava tão grande que eu não conseguia mais respirar. E eu também não podia tirar a luva pra tirar a máscara, pra tirar o sangue dentro da máscara e respirar. E eu tive que tomar uma decisão naquele momento. Eu tava no meio da corda, quando...

Arthur Mello 52:57

Quanto tempo ainda tinha de travessia?

Karina Oliani 52:59

Foram 100 metros de corda, eu tava mais ou menos ali nos 40, eu tinha que tomar uma decisão de eu me puxo de volta ou eu termino a travessia. E aí eu meio que tomei uma decisão muito rápida, eu falei, nossa, tá muito quente aqui, eu não vou poder ficar, eu não vou aguentar muito mais do que 30 segundos aqui, é melhor eu continuar me puxando e terminar a travessia e prender a respiração. Eu sei que eu fico 4 minutos sem respirar, 30 segundos eu vou conseguir, aí eu terminei a travessia, E aí, a hora que eu cheguei, a primeira coisa que eu fiz foi tirar a máscara e deixar o sangue cair. Respirar, assim, foi uma coisa... Essa daí, acho que foi a primeira que veio na minha cabeça.

Arthur Mello 53:37

E sinal de alerta que você aprendeu a reconhecer? Na montanha ou fora dela?

Karina Oliani 53:41

Fora dela. E foi recentemente eu decidi parar de ter pena das pessoas pelo passado delas e tentar mudar as pessoas com amor e pelo meu positivismo cego de achar que todo mundo é do bem e que sempre tem bem ali dentro, é só a pessoa ser amada direito. Cada veio pra uma missão e eu não vou mais tentar mudar ninguém. Deixa as pessoas serem o que elas são. Eu vou fazer o trabalho pela minha ONG, mas não fora dela.

Luiza Queiroz 54:11

Justo.

Karina Oliani 54:12

Basicamente é isso.

Luiza Queiroz 54:14

Muito obrigada pela conversa, eu aprendi muito. Eu acho quem quiser... O Arthur já conhecia pouco, eu era meio novata nesse assunto, então quem quiser conhecer mais pouco desse mundo, o que você indicaria? Tem alguns documentários seus, algum livro que você... Que você leu, que te marcou, algum filme?

Karina Oliani 54:32

Olha, livro, vamos lá, o meu preferido é o Endurance, né, que conta a história do Shackleton, eu acho que é uma das melhores histórias de liderança e resiliência da raça humana que já teve. Se as pessoas quiserem, tem bastante, se digitar Karina Oliani ali no Google, no YouTube, tem vídeos do Kilimanjaro, do Aconcagua, da Antártica, do Everest, do K2, eu... Também sou apresentadora do Planeta Extremo da Globo, então quem quiser assistir ali no Esporte Espetacular pode assistir nossas matérias. No Canal Off, ano que vem, eu vou ter programa novo, chama Resgates Extremos. Além de dois filmes que chama Escalando no Fim do Mundo, que é a primeira escalada documentada pra TV brasileira do Monte Vinson, apenas por brasileiros.

Luiza Queiroz 55:19

Maneiro. E aí agora, filosófico, hein? Pra fechar.

Karina Oliani 55:23

Eita!

Luiza Queiroz 55:24

Daqui a 20 anos a Cora vai contar a sua história pra alguém. Que versão de você você quer que ela conte?

Karina Oliani 55:33

Eu quero que ela fale sobre a mamãe dela mesmo, quem foi a mamãe dela. Eu tô vivendo de jeito que agora não tenha que falar, minha mãe abriu mão disso por minha causa, ou minha mãe deixou de fazer isso pra ser uma boa mãe. Eu quero que seja o contrário. Minha mãe, ela fez tudo que ela queria, ela foi a mulher profissional que ela queria e, ao mesmo tempo, ela foi uma super mãe.

Arthur Mello 55:58

Karina, obrigado pelo seu tempo, pela sua dedicação. Foi ótima a nossa conversa. Muito obrigado, de verdade.

Karina Oliani 56:05

Obrigada mesmo. Obrigada pelo convite, eu adorei. E espero a próxima.

Luiza Queiroz 56:10

Obrigada. Esse foi mais episódio do Valores no Tempo, o podcast da Tori, uma empresa do Grupo Turim. Nos próximos episódios, vamos conversar com mulheres que construíram trajetórias notáveis em áreas bem diferentes dessa, do fundo do mar à física de partículas.

Arthur Mello 56:26

Se você gostou, se inscreve no canal, deixe o seu like e ative as notificações para não perder os próximos episódios. O Valores no Tempo está disponível nas principais plataformas de áudio e também nosso site, onde a gente publica a transcrição completa de cada conversa.

Luiza Queiroz 56:41

Até a próxima!

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