Em 17 de setembro, a Tori recebeu Ricardo Geromel para uma conversa sobre as transformações que vêm moldando a China e redefinindo seu papel no mundo.
Quem é Ricardo Geromel
Empresário, investidor e autor, Geromel acompanha a China há mais de quinze anos. É cofundador da FCGI, que conecta empresários e investidores brasileiros a ecossistemas de negócios e inovação na China e no Vale do Silício. Integrou a Forbes americana entre 2011 e 2019, onde era responsável pela cobertura dos bilionários brasileiros, e é autor de BI.LIO.NÁR.IOS, O Poder da China e O Novo Poder da China, lançado neste ano.
A educação como ponto de partida
Geromel abriu pela educação, o assunto que considera impossível de contornar para entender o país. Onde a infância ocidental é tempo de brincadeira e descoberta, a chinesa se organiza cedo em torno do vestibular nacional, em muitas famílias desde os primeiros anos de vida. A raiz é confuciana e remonta ao exame imperial, pelo qual o imperador selecionava os melhores quadros do país para manter o trono.
A consequência aparece na formação técnica. A China responde por uma fatia do total mundial de engenheiros muito superior ao seu peso populacional, e os últimos presidentes do país são engenheiros de formação, todos saídos de universidades que qualquer chinês sabe nomear. O contraste que Geromel trouxe para o Brasil é direto: a renda por habitante não sobe porque a produtividade não sobe, e a produtividade não sobe porque boa parte das crianças sai da escola sem ler e escrever bem.
Energia e a vulnerabilidade que organiza a política industrial
A China importa a maior parte do petróleo que consome, e quase todo esse volume passa por um único estreito no sudeste asiático, em águas internacionais que ela não controla. Se o petróleo para, a fábrica do mundo para. Reduzir essa dependência por meio de energia renovável deixou de ser agenda ambiental e virou questão de segurança. O segundo motor foi a poluição nas grandes cidades, herança de tirar centenas de milhões de pessoas da miséria em poucas décadas.
Solar, baterias e o carro elétrico
A queda no custo do painel solar ao longo dos últimos anos reorganizou a indústria inteira e tirou concorrentes do jogo. Geromel descreveu fábricas que operam de luz apagada, sem operador no chão. Painel puxa bateria, porque o sol gera de dia e o consumo é à noite, e bateria puxa o carro elétrico, já que ela responde pela maior parte do custo do veículo.
O reflexo chegou ao Brasil. Boa parte dos carros mais vendidos no país no mês passado era de marcas chinesas, com dezenas de montadoras já operando aqui e uma rede de concessionárias em expansão acelerada.
Inteligência artificial e demografia
A equação chinesa em inteligência artificial trocou desempenho máximo por custo. Para a maior parte das aplicações corporativas, o modelo de fronteira não é necessário, e aí a diferença de preço decide. A aposta é oferecer o modelo de graça e monetizar na camada de infraestrutura, em nuvem, processamento e data center.
Por trás da robótica e da automação está a demografia. A população chinesa encolhe desde o início da década e o país praticamente não recebe imigrantes, o que faz da automação uma resposta à escassez de mão de obra. Geromel encerrou o bloco com uma provocação sobre o gargalo seguinte: hoje o assunto é chip, e na próxima década será eletricidade.
Como ler os números chineses
Quem trabalha com a China opera com margem de segurança diante da estatística oficial. Os problemas estruturais que Geromel enumerou são a demografia, a desigualdade, a crise imobiliária e o consumo doméstico fraco. Planos de longo prazo podem ser abandonados em silêncio e regras podem mudar de uma hora para outra, como aconteceu quando o governo eliminou um setor inteiro de educação privada em um único anúncio. O que vale é acompanhar as ações com frequência, não os planos.
O que ele recomendou a quem quer fazer negócio na China
Não ser o pioneiro solitário. Trabalhar com parceiros que já tenham histórico com empresas chinesas. Fazer a lição de casa sobre a saúde financeira da contraparte antes de assinar qualquer coisa. Acompanhar os planos quinquenais, porque a direção do governo antecipa setores inteiros. E mapear a própria exposição à China na cadeia de suprimentos.
Ampliar o conhecimento sobre diferentes mercados, culturas e transformações globais é parte de como a Tori constrói uma visão preparada para o longo prazo.

