No segundo episódio de Valores no Tempo, Arthur Mello e Luiza Queiroz percorrem a história da gestão patrimonial: dos escribas do Egito, da Babilônia e da China Imperial ao conselheiro medieval, dos Médici no Renascimento ao primeiro family office formal, criado por John D. Rockefeller em 1882, até os multi family offices e os zaibatsu japoneses. Uma viagem que mostra como a preocupação em organizar, proteger e transmitir patrimônio acompanha as famílias desde as primeiras civilizações.
The House of Medici — Christopher Hibbert
Indicação de Luiza para quem quer entender como a família transformou a política de Florença e construiu seu capital simbólico, financiando artistas e até papas.
Sapiens — Yuval Noah Harari
Lembrado por Luiza pela ideia de que a escrita nasceu como um método de contabilidade, na origem do registro patrimonial.
Acquired — Standard Oil, partes I e II
Os episódios sobre John D. Rockefeller citados por Luiza, da nona temporada do programa. A segunda parte trata da filantropia da família como estratégia de perpetuação.
O mecenato dos Médici
Donatello, Fra Angelico, Botticelli, Michelangelo, Leonardo da Vinci e Galileu Galilei estiveram entre os financiados pela família ao longo de gerações.
Rockefeller Capital Management
O escritório criado pela família em 1882 segue em atividade, hoje sob esse nome, com atuação em investimentos e filantropia.
Os zaibatsu japoneses
Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo nasceram como clãs familiares; a lógica de continuidade sobreviveu ao desmonte do pós-guerra.
Quando a gente fala em family office, pode parecer conceito super moderno. Mas, na verdade, essa história começa muito antes de usarmos esse termo.
Exato. O que a gente vai mostrar hoje é que, desde que as famílias existem, existe também a preocupação em organizar, proteger e transmitir patrimônio. Seja ele ouro, terra, poder político ou, mais recentemente, ativos financeiros.
E a gente resolveu ousar, fazer uma viagem histórica, da antiguidade até os dias de hoje, para entender como esse conceito nasceu e se transformou até chegar no modelo que conhecemos hoje. Eu sou a Luiza Queiroz.
Eu sou Arthur Mello e o episódio 2 do podcast Valores no Tempo já começou. Esse é projeto da Tori, uma empresa Turim. Nós estamos quinzenalmente nos principais streams de podcast, sempre trazendo reflexões relevantes sobre patrimônio, longevidade, investimentos, legado e outros assuntos que permeiam esse universo dos family offices.
Arthur, você já parou para pensar como a ideia de proteger patrimônio acompanha a humanidade há séculos?
Claro, o senso de autopreservação faz parte de qualquer espécie viva. Foi o que fez a gente evoluir e chegar até aqui, inclusive. Agora, olhando sobre a ótica do patrimônio, que é o que nos interessa, eu diria que essa ideia de autopreservação começou quando a gente começou a acumular poder, material simbólico.
É, se a gente voltar lá atrás, nas primeiras civilizações, uma coisa me chama atenção. Não havia riqueza sem registro. Antes mesmo de existir dinheiro, como a gente entende hoje, já existia essa preocupação em cuidar da herança, em manter registros, transmitir saberes, assegurar a continuidade de uma linhagem ou de uma organização familiar. É claro que não se tratava de uma estrutura robusta como a gente conhece hoje, mas a função de gestão e preservação patrimonial é algo que vem sendo exercido há muito tempo, com outros nomes e formatos.
Acho que o primeiro grande marco de gestão patrimonial remonta à Antiguidade, as primeiras civilizações que a gente conhece. Não existia exatamente uma estrutura pra lidar com o patrimônio das famílias, mas existia uma figura importante, que fazia o papel de registrar tudo o que precisasse ficar pra posteridade. Heranças, acordos, propriedades, impostos... Eu tô falando de uma figura que provavelmente vocês devem já ter ouvido falar e se lembram e estudaram nas aulas de História. São os escribas. Nos reinos como o Egito, a Babilônia e a China Imperial, eles eram figuras estratégicas que dominavam a escrita e, consequentemente, o registro. Além da contabilidade, esses escribas acumulavam funções de conselheiros políticos e religiosos. Eles são meio que os precursores dos Trusted Advisors.
Gostei. E será que dá pra dizer que os escribas foram os primeiros CFOs da história?
CFOs e COOs, talvez.
É, eles eram a memória viva do império, e mais que isso, uma âncora de confiança, porque o registro é a chave da continuidade. Sem continuidade não existe sucessão. E uma coisa que eu achei curiosa é, eles não criavam a riqueza, mas sem eles a riqueza não passava adiante. Era o início da lógica de preservar para transmitir, que a gente conhece hoje. Me lembra até uma frase do livro Sapiens, "a escrita nasceu como método de contabilidade". Ou seja, Arthur, será que a gente pode dizer que administrar bens foi uma das razões que criamos a escrita? Como será que isso ficou com o passar do tempo e conforme a alfabetização foi se expandindo?
Na verdade, elas evoluíram para uma outra função social que certamente você já ouviu falar, o conselheiro medieval, que surge na Idade Média. Ele administrava os bens, coordenava os recursos humanos do feudo, cuidava da contabilidade e até representava senhor feudal em casos de ausência. Funcionava tipo como gestor invisível do patrimônio feudal. Na maioria das vezes, o conselheiro medieval era a única pessoa com instrução formal dentro daquela estrutura familiar. Por isso, era ele quem articulava o presente e o futuro, cuidava dos bastidores de uma sucessão, fosse por morte, casamento ou uma crise.
Acho que entendi, então. Ele era quase uma mistura de CFO, COO, administrador, e que carregava exatamente esse tipo de confiança silenciosa que a gente ainda espera de family office hoje e que, com certeza, a gente vai falar mais ao longo da temporada, né?
E aí a gente chega num ponto de partida da nossa pesquisa pra esse episódio. A família Médici, de Florença, no Renascimento. Acho que essa é a parte mais interessante que eu acho da história, por isso a gente tá falando pouco dela aqui. Acho que dá pra dizer que nesse momento houve refinamento dessa estrutura. Na verdade, teve o surgimento dela de fato, porque antes a gente tinha que era monte de gente cumprindo papéis diferentes, mas ela não era assim tão organizada. A família Medici entendeu que perpetuar o patrimônio vai muito além de manter as finanças em ordem. Ela institucionalizou o poder familiar por meio de uma estrutura, que era quase protótipo de family office que a gente vê hoje em dia. Tinha uma governança clara, uma divisão de responsabilidades, uma educação formal dos herdeiros e, claro, as alianças estratégicas. Família Medici foi uma família que teve reino na Itália e teve uma rainha na França ao mesmo tempo. Sabia, Luiza?
Não sabia não, mas o que eu sabia é que a primeira vez que a governança apareceu no contexto familiar foi com eles. Eles distribuíram poder, definiram funções administrativas para os membros da família e até construíram uma espécie de conselho informal para articular interesses, sejam eles políticos, financeiros e até culturais. A governança virou uma forma de garantir a coesão da família, mas sem sufocar aquela autonomia, né? E eu acho que pode até soar repetitivo falar aqui de sucessão e de estruturas, mas acho que o que eu mais aprendi assim, quando a gente estava estudando sobre eles, era talvez a forma como eles investiram em capital simbólico.
O que eu acho que eles transformaram uma riqueza em capital simbólico, eles não investiram de uma forma convencional talvez, eles entenderam muito cedo o poder do soft power, eles entenderam que apoiar cultura, ciência e religião não era filantropia, mas era uma estratégia de perpetuação. Mais do que escrever livro, registro ali, a família Médici, ela escreveu nome na história. Ela criou uma marca que sobreviveu, enfim, ao tempo, aos anos, e tá aqui toda vez que a gente vai pra Florença, a gente vê ela de novo.
Vai lá, Arthur, eu sei o quanto que você quer falar e contar tudo que você sabe sobre os Médicis. Pode começar.
Os Médici, eles sabiam administrar, talvez como ninguém, esse capital simbólico. Eles foram, eu diria, os maiores mecenas da história. Eles financiaram as universidades, bibliotecas, artistas, arquitetos, pensadores. Cosimo I, ele foi quem financiou o Donatello. Foi ele que financiou o Fra Angelico. Lorenzo, o filho dele, foi quem financiou o Botticelli, Michelangelo e o Leonardo da Vinci.
Basicamente, estão todos os artistas italianos do Renascimento, né?
E depois, o Cosimo II foi quem financiou o meu ídolo, o Galileu Galilei. A Catarina de Medici, aqui, para os franceses, eles ficam tristes, mas quando a Catarina foi virar rainha da França, quando ela casou com o Henrique II, o que dizem é que, quando ela atravessou a fronteira, Lá perto de Lyon, ela teve que trazer tanta gente, aquela trupe dela, e foi ela que começou a cozinha francesa. Então, a cozinha francesa, ela vem dos Medici, que tiveram que levar, enfim, as pessoas para fazer a comida que a Catarina queria.
E parece que Lyon é a cidade na Europa com a maior concentração de restaurantes Estrela Michelin. Será que é por isso?
Então, a gente também deve, talvez, a cozinha francesa aos Médici. Enfim, a gente como sociedade ganhou acervo inacreditável de arte, de ciência, de cultura. E foi por causa dessa família que escreveu o nome dela na história. Talvez não apenas por vaidade, mas por estratégia. Eles entenderam lá nos anos de 1400, 1500, 1600, que essa era uma forma única de construir legado que resistisse às gerações, e foi o que aconteceu. Toda vez que a gente vai lá para Florença e a gente vê aqueles palácios, aquelas esculturas, a gente está vendo pouco do family office, da família Medici.
É, eu acho que a gente tem muito a agradecer eles, então, pelo que você está me falando.
Com certeza.
E tem livro sobre eles, para quem quiser saber mais, que mostra exatamente como eles transformaram não só a política de Florença, mas também todo esse capital simbólico que o Arthur comentou, né? Financiando artistas e até papas. Se chama The House of Medici, do Christopher Hibbert. E parece que funcionou, porque a gente está aqui em 2025 falando deles até hoje. Pulando alguns bons anos, chegamos ao século XIX. No Brasil, a história é a do Barão de Mauá, ou Irineu Evangelista de Souza, para os íntimos. Ele foi um dos maiores empreendedores do século XIX aqui no país. Criou ferrovias, indústrias, bancos, teve uma visão internacional e ousada, vamos dizer. Ele tinha uma visão super internacional, apostou na infraestrutura do país, criou até o que chamamos de holding, complexo e bem articulado. Mas, Arthur, sabe o que ele não fez? Ele não pensou em sucessão. Motivo clássico de perda patrimonial que a gente vê acontecer até hoje, né? O legado econômico do Barão de Mauá não sobreviveu à fragilidade institucional da família. E aí fica a lição, genialidade e inovação não bastam se não existem pensamento de continuidade.
Nossa, não sabia. Estranho. Ou curioso. O Mauá foi pioneiro em tanta coisa. Iluminação a gás no Rio, mas sem a continuidade, tudo acabou. Isso acontece até hoje nas famílias empresárias. Acho que de jeito parecido, talvez, isso aconteceu com os Matarazzo. Aquela família de imigrantes italianos que construiu império aqui no Brasil. Tudo começou com o Francesco Matarazzo, que nasceu em 1854. Ele criou um conglomerado familiar gigantesco, tinha mais de 350 empresas, milhares de funcionários e valor estimado de mais de 20 bilhões de dólares.
Bilhões ou milhões?
Bilhões. Mas a gestão, que não foi nada profissional, acabou dificultando um pouco a sucessão e a sustentabilidade desse grupo. Luiza, eu já falei dos meus, então agora chegou a hora de você falar dos seus queridinhos e você ter o seu monólogo.
Sim, chegou a minha vez. E nesse mesmo período nos Estados Unidos, John D. Rockefeller dava um passo revolucionário. Em 1882 cria o que podemos chamar do primeiro single family office contemporâneo. Ele era magnata de petróleo e é considerado por algumas fontes o homem mais rico de todos os tempos. E no fim do século XIX ele cunhou o termo family office para designar esse escritório exclusivo que fazia a gestão dos interesses da sua família. Patrimônio financeiro, imóveis, doações, filantropia, sucessão, governança e por aí vai. O Family Office dos Rockefellers não era uma estrutura estática, muito pelo contrário. Não era engessada pela burocracia, era organismo vivo, pensado mesmo para durar. Talvez esse tenha sido o momento histórico em que a gente entendeu que perpetuar o patrimônio não é isolar a família num protecionismo, mas sim integrar ela a toda uma estrutura que seja capaz de evoluir com ela e de evoluir com a sua história. Se a gente considerar que a família Rockefeller ainda é uma das mais influentes dos Estados Unidos até hoje, acho que a gente tem muito a aprender com eles.
Curioso, né? Pensar que quando os Rockefeller criaram o family office, a fortuna deles era tão grande que tem gente que fala que eles superavam o PIB de países inteiros. E acho que foi necessário o governo quebrar o monopólio deles pra deixar eles pouco menos influentes, eu diria.
Mas olha que o escritório deles existe até hoje, como o Rockefeller Capital Management. É claro que eles não detêm a mesma concentração de poder financeiro, mas até hoje a família se mantém ativa no mercado financeiro. Investe em tecnologia, empreendedorismo, com certeza continua fazendo filantropia, apoiando iniciativas de educação, saúde, artes e sustentabilidade. Lá em 1882, na fundação do primeiro family office formal da história que eu comentei, os Rockefellers já tinham entendido o jogo. Proteger legado exige mais do que disciplina financeira. Existe a tal chamada visão de longo prazo, valores bem definidos e diversificação, não só dos ativos, do dinheiro, mas também de outras frentes de atuação da família. Eles conseguiram resistir a todas as mudanças econômicas, políticas, sociais e até culturais. Tudo isso por quê? Porque descentralizaram o poder e investiram em diferentes esferas de influência. Eles são, talvez, exemplo clássico de como a longevidade não nasce da repetição, mas da capacidade de adaptação.
Luiza, você diria que o que diferencia os Rockefeller dos Mauá, do barão de Mauá, é justamente essa institucionalização? Os Rockefeller sabiam que uma fortuna sem regras acaba se perdendo e eles criaram algo pra durar pra sempre?
Olha, pode dizer que sim. Os Rockefellers montaram essa estrutura que eu falei que não existia até então. E não era só para controlar a família, mas para protegê-la, inclusive dela mesma. O family office ali funcionava como, vamos dizer, filtro, centro racional que impedia que as emoções familiares se desestabilizassem. E não afetasse a gestão do patrimônio. Foi talvez com os Rockefeller que surgiu essa estrutura que funciona como instrumento de mediação entre diferentes gerações e também diferentes interesses.
Eles também são exemplo de família que entendeu o poder de construir capital simbólico que a gente viu com os Médici. Eles financiaram instituições que mudaram a ciência, a arte e a educação no século XX nos Estados Unidos.
E Arthur, já que você falou dos seus, eu vou falar dos meus e vou citar alguns exemplos. A família fundou a Universidade de Chicago, investiu na Harvard Medical School e na Columbia, criou a Rockefeller University, que é voltada para pesquisa biomédica. Além disso, eles foram os patronos por trás da criação do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. E apoiaram o Lincoln Center, que é complexo em Nova York também, onde ficam as sedes de 12 companhias artísticas.
Ou seja, os Rockefeller transformaram a influência econômica em relevância cultural, e esse tipo de capital é talvez o mais difícil de construir, mas é o mais difícil de apagar também, porque quando o nome de uma família se vincula com instituições como essas, ela deixa de ser nome para virar parte da história.
Daria pra fazer, eu acho, uma temporada inteira só sobre a história dessa família e como eles construíram a riqueza deles. Mas, pra quem tiver curiosidade em se aprofundar, eu recomendo muito o episódio do podcast Acquired, sobre os Rockefellers. Acho que lançou na nona temporada, se eu me lembro bem de cabeça. Lá eles contam exatamente que a filantropia da família não era apenas altruísmo. Era também uma estratégia de perpetuação de toda essa relevância que eles construíram. E isso é fascinante, porque continua sendo uma lição pros family offices hoje. O legado que a gente tanto fala hoje em dia não se limita ao patrimônio financeiro, ele também é cultural e simbólico.
Depois disso, essa prática se espalha. Famílias industriais europeias como os Warburgs e os Rothschilds criam suas próprias estruturas. Eles eram quase bancos familiares, que influenciavam até as políticas nacionais. São os exemplos em que os family offices eram menos sobre conforto e mais sobre poder econômico no cenário global. Cada família montava sua estrutura dedicada, com escritório exclusivo para cada uma delas. Mas havia desafio, o custo. Manter uma equipe inteira para uma só família exigia capital enorme.
E Arthur, eu não acho que era só custo, não. Também podia haver certo isolamento. Cada família reinventava a roda sozinha, sem compartilhar conhecimento, sem compartilhar expertise ou até talento. Ainda assim, foi período de consolidação de práticas que moldaram o conceito moderno que a gente conhece hoje. E detalhe que eu acho que vale a pena mencionar, voltando a essas famílias que você mencionou e também os Rockefeller, Carnegies, Fords, Pews, Vanderbilts e Roosevelts, famílias que todo mundo provavelmente conhece, todas essas família viram a necessidade de separar a administração da riqueza da administração do negócio. Não acho que eles apenas inventaram o family office como conceito, mas também ajudaram a consolidar a ideia de Multi Family office, depois que outras famílias começaram a se unir para compartilhar os custos e conhecimento. Inclusive, muitos dos Multi Family offices que existem hoje surgiram da união de singles, famílias que já tinham estrutura própria, mas perceberam que fazia sentido compartilhar, dividir conhecimento e criar sinergias em governança. Ou seja, o Multi não foi uma invenção isolada, mas movimento coletivo de cooperação entre as famílias.
É quase como uma rede de inteligência patrimonial. Várias famílias se beneficiam da mesma estrutura profissionalizada sem perder personalização. E essa colaboração transforma o Family Office num espaço de inovação. O Multi Family Office aprende com a experiência de cada família. E essa troca acaba enriquecendo todas.
Com certeza, Arthur. E, olha, a gente já falou da Europa, dos Estados Unidos e até do Brasil, mas essa questão de gestão de patrimônio não é só ocidental. Queriam saber um pouco da Ásia.
É de lá que vem o último arco da nossa linha do tempo, os Zaibatsu japoneses, que dominaram a economia no Japão no período pré-segunda guerra. Os Zaibatsu eram conglomerados familiares articulados por bancos, com estrutura de clã e sucessão planejada. A relação entre parentesco e governança era tão profunda que, mesmo com a tentativa do desmonte no pós-guerra, parte dessa cultura de continuidade sobreviveu. Os Zaibatsus japoneses ensinam uma coisa valiosa sobre sucessão. Até em função da maneira mais serena como as culturas orientais lidam com a morte, os Zaibatsus acham que a sucessão era uma espécie de rito de passagem. Envolvia preparação técnica, emocional, honra ao legado, adaptação ao novo. E os possíveis sucessores eram inseridos nessa lógica desde muito cedo, no que eles chamavam de programa desenvolvimento de herdeiros.
E acho que eles entendiam a longevidade de forma diferente, né?
Nos zaibatsu, é verdade, nos zaibatsu o tempo era medido em gerações, não em trimestres como a gente tá acostumado a fazer aqui no ocidente. No Brasil é mais diário às vezes, né, no family office. Existe uma mentalidade de longo prazo que não esperava resultados imediatos e que não separava passado e futuro. Ali tudo fazia parte do mesmo ciclo, era uma lógica quase filosófica. Isso trazia bastante profundidade para as estratégias.
Acho que aqui na Tori e na Turim a gente pensa mais como os orientais, né? Acho que os zaibatsus são um exemplo poderoso de como cultura sólida pode funcionar como motor de sucessão e longevidade. Engraçado que, ouvindo assim você falar, e pensar que o Japão tentou acabar com os Zaibatsu, mas de certa forma eles continuam, né?
Sim, hoje a gente conhece os nomes como Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo... mas pouca gente sabe que eles nasceram como clãs familiares. E o mais impressionante é que, mesmo com o desmonte no pós-guerra, a lógica de governança e continuidade atravessou décadas.
Ou seja, pelo que eu entendi, o que parecia o fim, na verdade, foi só uma transformação. E isso é um paralelo interessante com os family offices, né? Eles também precisam evoluir de forma resiliente, sem perder o eixo central, vamos dizer.
Claro. Com o avanço da tecnologia, está tudo acontecendo mais rápido. O mundo demanda mais agilidade, inclusive para a gente tomar as nossas decisões. Mas não é só isso. As mudanças às vezes são repentinas e a dinâmica é tão acelerada que essas novas gerações já nascem num mundo completamente diferente daquele onde os pais e avós nasceram.
Isso, pensando aqui, até me soa como paradoxo, talvez. Quanto mais rápido o mundo anda, mais importante é ter condições de pensar sem pressa, de refletir, de projetar, de até perguntar com sinceridade, onde a gente quer estar daqui a 20, 30, 50 anos? Ou seja, planejar e antecipar tendências é uma arte nesse mundo tão acelerado. Se tudo é cada vez mais efêmero, o que a gente precisa fazer para ser perene?
Filosófico, hein, Luiza? Essa é uma ótima pergunta. E se a gente olha pra essa jornada, dá pra ver fio condutor. A busca por continuidade. Seja com escribas, conselheiros medievais, os Medici, os Rockefeller, ou os Multi Family offices de hoje. Eu acho que reputação, memória, influência, confiabilidade e nome, tudo isso é capital e precisa ser cuidado.
Com certeza, eu acho que como a gente viu aqui, capital simbólico não se compra, se cultiva. Acho que se tem uma coisa que essa viagem no tempo que a gente fez e esses exemplos que a gente citou nos ensinaram, é que o papel de family office não é só proteger dinheiro, é também proteger legado, pensar em sucessão. Na antiguidade, por exemplo, a escrita funcionava como uma tentativa de dar previsibilidade à sucessão. Quando o faraó mandava o escritor registrar os bens que ele deixava, para quem ele deixava, os termos dessa herança, ele não estava só organizando bens, ele estava tentando conter o caos que possivelmente aconteceria depois da sua partida.
Essa preocupação aparece também na figura do conselheiro medieval que comentamos. Além de fazer toda a gestão de pessoal, das finanças e dos bens, ele tinha papel quase educativo, de ensinar os filhos do senhor a lidarem com os servos, administrar os estoques, a tomar as decisões. Era uma espécie de tutor, administrador e mentor ao mesmo tempo. E talvez o exemplo mais didático de sucessão estratégica na modernidade, Luiza, tá na história dos Rockefeller. Desde o início, o John Rockefeller entendeu que a magnitude é a complexidade do patrimônio que ele estava construindo, e que isso não era pra deixar tudo na mão dos filhos. Ele criou sistema, contratou profissionais, estabeleceu regras claras, montou toda uma estrutura dedicada, e também investiu em formação. Educação financeira, valores e filantropia. O herdeiro Rockefeller não era só uma pessoa que teria direito à fortuna, não era só nome, era uma pessoa que compartilhava dos valores da família, que participava da consolidação da cultura familiar e que aprendia a enxergar tudo isso como patrimônio também.
E traçando paralelo com os family offices de hoje e até o que a gente faz aqui dentro do Grupo Turim, o conselheiro medieval era exatamente essa figura extremamente importante, sábia, experiente, confiável, mas que agia sempre com o máximo descrição. Ele estava ali nos bastidores, sem procurar protagonismo. E quando existe essa figura que zela pelo poder, o patrimônio deixa de ser território de disputa, né?
Sim. A gente sabe que sucessão não é evento pontual, é o resultado de uma série de escolhas passadas e de expectativas futuras.
Será que o family office pode ser, então, no fundo, a resposta para aquela pergunta filosófica que eu fiz? Como fazer com que o que eu construa atravesse gerações? Porque o mundo está mudando, os arranjos familiares estão cada vez mais complexos, mais diversos, mais dispersos.
É um cenário complexo mesmo, que exige a atualização constante das pessoas como nós. E com relação às estruturas em si, o que será que vai acontecer nos próximos anos? A gente sabe que o custo para manter um single family office pode ser alto, e que isso tem levado várias famílias a migrarem para Multi Family office. Segundo uma pesquisa divulgada pela Ernst & Young em 2023, 62% dos family offices planejam revisar sua estrutura nos próximos três anos, principalmente por causa do aumento da complexidade. No próximo episódio, a gente vai mergulhar em como esses modelos se organizam na prática e com quem já vive isso no dia a dia.
É justamente isso, as estruturas, que a gente vai discutir no próximo episódio do Valores no Tempo, esse projeto da Tori, uma empresa Turim. Nós vamos receber a Carol Carvalho, co-CEO da Turim, para conversar sobre os diferentes formatos e a complexidade operacional envolvida num family office. Pra você que escutou esse episódio até aqui e não quer perder as próximas novidades, é só seguir o podcast na sua plataforma de áudio preferida e ativar o sininho para ser avisado ou avisada sobre as nossas atualizações. Siga a gente no LinkedIn também.
É isso aí, gente. A gente se encontra em breve.
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